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América Central, Costa Rica

Playa Hermosa

Eram 04:00 h da manhã e já estava acordado, pensando que roteiro mais curto tomar, porque já não tenho como exigir mais do bolso e da Electra. Viajando solo, a possibilidade de ocorrer uma pane nos lugares ermos e distantes que eu tenho atravessado, me assombrava constantemente, porque demandaria uma logística que não existe e para implementar alguma, mesmo rudimentar, seria custoso demais. Ao invés de formular soluções, procurava afastar esses maus pensamentos da minha mente. Mas, eles teimosamente permaneciam lá. Há algum tempo, já venho viajando com o “alerta amarelo” me avisando quanto as possibilidade de pane iminente na moto. O problema é que, em uma viagem dessa magnitude, tudo tem que ser resolvido dentro do orçamento e não tenho mais como o esticar. Assim, a solução é reformular o percurso para um roteiro mais barato.

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Consultei e não obtive resposta da Air Cargo Pack, quanto ao vôo de Ciudad de Panama para Lima, para saber se valeria a pena diminuir mais um pouco, o meu percurso por terra. Então, permanece valendo a reserva que fiz para Bogotá. De Bogotá, poderia seguir para o Brasil, pela Venezuela (roteiro original, mais longo), Acre (atraente, mas me é desconhecido) ou Paso de Jama (conhecido).

Contra a minha vontade, mas em função do orçamento que já estar deficitário e das iminentes panes na Electra, sou forçado a abandonar o roteiro original, via Venezuela, passando por Manaus e o Nordeste – me perdoem os amigos e parentes, que me esperavam por lá. Assim, creio que o Paso de Jama seja a opção mais racional. Se não ocorrer nenhum fato novo, será este o meu caminho. Pretendo seguir no rumo do Equador, Peru, Chile, Argentina para chegar ao Brasil.

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Com o problema mais ou menos equacionado, fiquei mais calmo e fui caminhar na pequena praia do Pacífico, sobre as areias negras. Tempo nublado, praia vazia e minha mente focada nos problemas a resolver – com tantas variáveis aleatórias – não me deixava em paz.

Voltei para o Hotel Vista Hermosa e fui conversar com Don Miguel. À mesa, estava com ele um senhor que é seu amigo há mais de 60 anos. Comentaram que do grupo de amigos que se reuniam constantemente em torna daquela mesa para jogar e conversar, já partiram todos para o infinito, inclusive os bem mais jovens, e somente eles dois ficaram para trás. Eles se diziam mais do que irmãos e os defeitos de cada um, ignoravam e deixavam aos outros apontarem. Pensei com os meus botões; quão preciosa é a amizade por afinidade e quanta falta nos faz. O que tem me exaurido ao extremo é a constante preocupação em não extrapolar o orçamento; e a energia para superar os vários objetos de medo (queda, pane, violência, corrupção, burocracia, incertezas etc); além da imensa falta que faz a família e os amigos. A solidão potencializa ao extremo a presença desta dama triste, que é a saudade. Quando estou para quebrar, a razão já não me conforta e somente encontro forças nas orações que dirijo ao Criador, que nos momentos mais difíceis, tive certeza absoluta de que Ele estava lá – pois sozinho, conheço as limitações e sei que não teria sucesso. Talvez, premido pelas circunstâncias, já tenho dúvidas, com pesar, se todo o prazer de pilotar e ter o privilégio de ver e viver a beleza da natureza na viagem ao Alasca compensa a miséria humana que vi, os medos que senti e o vácuo da saudade, que como um “alien”, parece tentar me rasgar. Mas, a cada dia, me levanto com energia e disposição suficientes para viver um dia de cada vez. Todavia, como é natural, quando estiver em casa, junto com a minha família e meus amigos, a supremacia das infelicidades que passaram se extinguirá. No futuro, o que prevalecerá desta viagem, na minha memória, será a beleza que vi e os prazeres de pilotar minha Harley, através de lugares incríveis, que a maioria dos homens nem pode imaginar.

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Dom Miguel percebeu o me estado de espírito e me tirou das minhas elucubrações: “Sabes por que Americano é chamado de Gringo? Porque nos momentos mais críticos entre as relações México – EUA, os mexicanos falavam para os americanos: Green, Go! Ou seja, verdes (green card) vão embora! Arturo! Amo muito o meu pequeno país, pois Costa Rica tem apenas 1% de analfabetismo, aqui não há Forças Armadas; a economia se baseia, principalmente, no turismo, além da exportação de café e frutas tropicais para os EUA; a saúde é gratuita para todos, inclusive para você; somos uma gente feliz e pacífica; e a nossa população é de 4 milhões, sendo 1,5 milhões de Nicaraguenses. Este é o nosso único problema.”

A conversa rolou até às onze e me fez muito bem, distraindo a minha mente. Mais tarde, quando nos despedimos, ele me pediu para não esquecer de lhe enviar o novo livro e fez questão de enfatizar para o seu amigo, que foi um prazer e uma honra eu ter me hospedado lá. Abraçou-me forte e deixei mais uma amizade bem plantada pela estrada. Fiquei admirado como ele valorizava a minha viagem, me vendo tão grande e eu me sentindo tão pequeno. Mais um anjo do bem cruza o meu caminho, graças a Deus. E assim, de migalha em migalha de bondade, sigo alimentando o meu espírito, mantendo a mente e o corpo sãos. A razão me critica, dizendo que eu não deveria ter exposto tanto o que vai na minha alma. Mas, o compromisso é comigo mesmo e com a verdade – do ponto de vista de quem está em campo – porque não quero esquecer as maiores dificuldades e superações, desta aventura, quando tudo isso passar.

PHD Artur Albuquerque

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