Viagem de moto até o Alaska

Olá amigos! Cheguei a Toronto!!! Na verdade foi no domingo último. A viagem foi se precipitando no final, parecia que tudo ia me empurrando, foi muito rápido e eu não tinha tempo livre. Fazia mil km por dia e quando escurecia eu parava pra dormir em beira de estrada, hotéis bons, mas sem computador para os hospedes, então ficamos sem os relatos.

Como foi viajar nos EUA? Muito mais fácil, claro. Depois do choque inicial no Texas, me acostumei com o esquema: placas com muita informação, estradas excelentes. Essas estradas nunca são engolidas pelas cidades, como ocorre no caminho ate o México. A cidade fica para os lados, preservada, há saídas muito bem sinalizadas e em cada saída tem pelo menos um posto, uma conveniência, um restaurante e um hotel. Se você cansa, e só ficar por ali mesmo. Não atrapalha a cidade e a cidade não atrapalha você. Então rende bem e fazer mil km nos EUA e bem tranquilo.

De Kingsville, no Texas, segui para New Orleans, na Lousiania. Então, ingressando por Matamoros (México), se toma a 77, isso até Houston, depois é a 10 East até New Orleans. Na passagem por Houston, minha primeira cidade muito grande, achei que ia me perder com a nuvem de viadutos que apareceu. Que nada. Só ficar de boa na 77 e aguardar indicação da 10. Sempre tem.

Nova Orleans valeu bem a pena, pelo seu bairro francês, pela Bourbon St., e pelo Rio Mississipi, que ali encontra o Golfo do México. Na Bourbon St. afoguei todos os perrengues do México, e aí foi só alegria. Essa região tem um lago enorme, ao norte de N. Orleans, e os americanos fizeram pontes incríveis pra superar todo esse pântano, incluindo a Ponte do Lago Pontchartrain, que disseram ser a maior do mundo, até que a China conclua uma outra que esta fazendo. Essa ponte nos EUA deve ter aí uns 40 km pelo menos. Pena que nas pontes é ruim de parar para fotografar. Do French Quarter para retomar a viagem, moleza. Só dar a volta no quarteirão e retomar a 10 Road buscando desta vez a 59 ao norte. Esse foi o inicio da ultima grande reta da viagem, de 2000 km. Segui então indefinidamente até fazer longa distancia. Depois de Birmingham peguei a 65 norte. Cruzei os estados do Mississipi, Alabama e Tenesse. Foi então que fiquei em White Horse. Essas estradas, ainda mais do sul, são muito tranquilas, e desisti de colocar uma pastilha nova no freio de trás, simplesmente porque não precisava usar o freio, nem o da frente. A primeira vez que usei foi em Nashville, pois tinha um congestionamento, o primeiro e último nos EUA.

No dia seguinte rumo a Louisville, Kentucky, para tomar a 71 e depois de Cincinati finalmente a 75 norte até Detroit, onde passei a ultima noite nos States. Chegando em Detroit não tinha a mínima ideia do que ia fazer, se seguia para o Canada, se dormia na estrada ou na cidade. Fui deixando rolar, mas a cidade me encantou, muito bonita, moderna, fez Sorocaba parecer um sitio arqueológico, e fiquei, apesar de o guia informar ser uma cidade violenta. Não passou nada.

Os hotéis nos EUA achei bem caros mesmo. Quartos muito bons, ar condicionado no talo, num deles eu tinha 9 toalhas! Bem que eu trocava pelas minhas cuecas limpas e a roupa de cordura. Os urubus já faziam fila na estrada.

O povo americano me pareceu extremamente educado. E foram também muito simpáticos. Pensei que nos EUA a moto e a viagem passariam indiferentes, mas não foi nada disso. Sobretudo no norte, em cada parada vinham pessoas conversar e querer saber tudo, com a diferença que não perguntavam quanto custou a moto! Mas how far, how long ... take care, nice job.

Nos EUA moto se confunde com Harley Davidson. E só o que tem. E não usam capacete muitas vezes. Aquele estilão easy-rider. Assistência técnica um monte nas estradas. Pelo menos foi assim do Texas a Michigan. Procurei o óleo Motul na Harley e nada. No Waltmart tampouco. Não consegui achar muito fácil as coisas que queria comprar, talvez pelo pouco tempo. O que estava sempre a mão eram postos, hotéis, restaurantes fast, mas não um centro comercial propriamente. Engraçado que na Costa Rica, na pequena Jaco, tinha o óleo numa lojinha e foi muito fácil nem precisei procurar. Na internet procurei e achei um distribuidor em Louisville. Chegando na cidade, parei num estacionamento de uma loja e pedi ajuda a uma moça que me recebeu muito bem, e me chamou um taxi. Fomos até a tal loja, peguei o óleo e retornei. Troquei o óleo na oficina dessa mesma loja, e o pessoal foi super legal. Me ajudaram mesmo. Se eu não trocasse o óleo ia ficar encanado, porque a distancia percorrida acabou ultrapassando em quase 2000 km do previsto. Felizmente nunca deixei passar e fiz todas as trocas (3) regularmente, com uma de filtro. Thank you sweet girl who received me in the store, thank you Jude very much, thanks everybody in BW BARRY WOOLEY DESIGNS, Louisville, KY!!!!

A passagem para o Canadá a partir de Detroit pode ser por um túnel ou por ponte. Estando o primeiro mais perto do hotel, lá fui eu. Mas NÃO, moto não pode ir pelo túnel. Retomei a 75 desta vez ao SUL para a tal ponte, a Ambassador Bridge (espetacular!). Acesso closed, fiz umas voltas, mas tudo sinalizado e segui a fronteira. De novo NAO foi fácil. Eu tinha estabelecido para mim que não ia falar se não me perguntassem, mas se perguntassem, iria falar a verdade dos meus planos de deixar a moto aguardando no Canadá até a próxima etapa ao Alaska. Não deu outra. Onde vc vai... perguntaram. Por que? Quando volta ao Brasil? E a moto? Então disseram OK, entre e vá aquele escritório que vão fazer mais perguntas sobre a moto. Então começou tudo de novo e ao final me disseram NO, YOU CAN'T. Dureza ouvir isso. Respira Vagnão.... Bom, vai daqui e dali, consulta um e outro, e sim, vamos deixar. Você terá de deixar um deposito em cash de 500 dólares, e poderá deixar a moto desde que ela não saia da garagem, Ok. Claro.

Segui para o Canadá, pela 401. Bonita planície, as casinhas de filme, limite de velocidade 100 km/h ou 60 milhas. Respeitei mas cansou. Estradas duplicadas de três faixas cada lado. Tava orgulhoso de ser brasileiro respeitando a lei canadense bem mais que eles. Bem, mas num congestionamento em obras perto de Toronto, passei soberanamente entre os carros e depois fiquei sabendo que NÃO, isso não pode. Ninguém é perfeito, eheheh.

Um caipira em Toronto

Fui conhecer um pouco da cidade e Niágara Falls. Vi a estação de ônibus, quer dizer, onde eles estavam e fui pra lá, claro. Estava a pé. Quase tomei uma multa de 500 doletas. NÃO pode! Não sei que parte eu não entendi da placa que dizia: NÃO passe por aqui! Tem que entrar no shopping atravessa-lo até a estação. Aí sim. Fui comprar ticket do metrô e dei 20 dólares no guichê. Recebi o troco e perguntei cadê meu ticket. O miguelito chino canadense disse: são 3 dólares. Pensei, oh seu mer ....d....nha, acabei de te pagar! Percebendo minha dúvida, uma moça ao lado disse que eu tinha que colocar 3 dólares naquela caixinha, uma prosaica caixinha de acrílico ao lado do guichê. Na verdade o miguelito daqui só tinha trocado minha nota de 20, nada mais. Caramba, não é possível. O metrô de Toronto vive de esmolas em uma caixinha do tipo gorjetas, tips, propinas!! Aí você passa numa roleta e aí você vai numa maquina vermelha e aperta um botão para pegar o seu ticket!! Se colocaram o miguelito canadense ali, porque ele não faz logo isso? Ou a máquina mesmo pegava os 20 dólares, dava o troco e o ticket. Inexplicável! Será que o canadense é português que deu certo? Brincadeirinha, é um grande povo (assim como os portugueses, diga-se), pois tudo isto aqui e muito lindo. Mas que vacilaram aí, isso vacilaram!

A viagem nos últimos quilômetros

Foi muita alegria ver as ultimas placas e finalmente chegar à casa do meu irmão. Era o fim de uma jornada de 18.000 km e mais um pouco, por Brasil (acho que uns 4000 km), Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala, México, EUA e Canadá. 12 países, 34 dias, minha maior viagem. Foi ótimo o CAMINHO, e foi ótimo chegar em Toronto, rever a família, conhecer minha nova sobrinha Sofia, dar um beijo no Igor!!

Viajar permite satisfazer uma curiosidade sobre os lugares, as pessoas, a forma como se organizam, e um teste para ver se você consegue viver em liberdade, ou mais próximo dela, uma busca de si mesmo. Não senti falta de nada que eu tenho, só amigos e família, então é um bom jeito de você verificar o que realmente é importante. Essa viagem teve muitos caminhos, e nenhum deles me afastou da minha família, ao contrario. Portanto, depois desse grande privilegio de ter podido estar nas estradas de moto por um tempo até bem grande, será melhor que tudo retornar pra casa, e é o que farei hoje mesmo.

Obrigado pela companhia de vocês, gostei muito das mensagens de todos, e isso ajudou e muito a manter o astral, que é fundamental pra todas as viagens, especialmente pra uma assim.

Até a volta.

abs.