Viagem de moto pelas Américas

Então, depois de muito caminhar a pé por Cuzco, que é o melhor que se tem a fazer por lá, ontem viajei de Cuzco a Nazca. Foi uma experiência transcendental e metafísica. Esse trecho da Cordilheira é o mais bonito que já vi.

Saindo de Cuzco iniciei uma longa descida e achava que para Nazca seria só isso, pois sabia que Nazca fica mais embaixo e faz calor, segundo me disseram. Mas não era isso. Até Albancay, uma cidade referência no caminho, ainda subi muito outra vez. Até aí cerca de 200 km. A paisagem lindíssima, com montanhas incríveis e picos nevados de mais de seis mil metros.

A certa hora, lá muito de cima, avistei a cidade de Albancay muito pequena lá embaixo, como se eu estivesse voando. Acho que estava a quase dois mil metros para baixo, tanto que demorei quase uma hora pra descer. Na descida, via o zigue-zague da estrada do outro lado da cidade, e achava que teria que subir tudo de novo para seguir do outro lado em direção ao meu destino. Mas era a própria estrada de onde eu vinha. Tanta curva me confundiu. A saída dessa cidade era por um vale incrivelmente lindo, por entre as grandes montanhas, e aí se foram mais 150 km.

Da cordilheira desce muita água e forma rios e cenários maravilhosos embaixo, com muita pedra solta. No caminho também há muitos derrumbes, que são desmoronamentos. Acontecem com muita frequência, mas há boa manutenção. Rapidamente eles retiram as pedras. Mas dá medo de que caiam bem na hora em que estou passando. Depois começou novamente uma longa subida, e cheguei a um altiplano (andino), um lugar muito amplo, aberto, lá em cima, com muito frio e vários lagos gelados. Aí ainda há capim e muitas lhamas pastando, e ovelhas, e aquelas cercas feitas de pedra, e família de índios vivendo em subsistência. É muito interessante. Não vi muitos caminhões, há muito pouco tráfego na rodovia, e imagino que no Peru as regióes são mais ou menos independentes, náo há muita troca entre as cidades. Em que pese a agricultura de subsistência, que acredito remonte às tradições mais remotas, nas cidades há muito comercio. De tudo eles vendem, e sempre estão gritando nas ruas oferecendo seus produtos.

Depois do altiplano, onde quase fiquei sem gasolina, cheguei a Puquio, abasteci, comi umas bolachas e segui finalmente para Nazca. Lá pelas tantas, depois da descida também vertiginosa do altiplano, a paisagem começa a mudar, e a vegetação desaparece, dando lugar apenas aos cactus. Então cheguei ao deserto de Nazca. Sem palavras para descrever. Digamos que o deserto de Atacama é bonitinho. Encontrei um carro e um caminhão do Rally Dakar. Acho que estão programando a próxima corrida. Tirei algumas fotos, mas não muitas, porque atrasa demais a viagem. Ontem rodei 700 km em dez horas. Cheguei bem cansado. As fotos não dizem quase nada do lugar. A energia dessas montanhas é fascinante e faz transbordar a alma da gente.

No caminho vejo umas chollas pastoras com suas lhamas e ovelhas, e sempre estão com os filhos, e estes tem uma lhamita ou ovelhinha pra si, com uma cordinha como coleira. São uma graça. As crianças estão sempre ajudando seus pais. Comportam-se muito bem, assim como as dos turistas. Conclui que o que estamos vendo de nossas crianças birrentas em SP não é nada natural. Aqui não vi uma criança turista ou não com celular ou eletrônicos. Recebem a atenção dos pais, brincam bonitinhas. Uma delas se apaixonou por mim lá em Puerto Maldonado. Dava a mão e sentava encostada em mim. Viajavam de Arequipa para Rio Branco de ônibus, e ela caminhou o dia todo, e era uma graça, jamais com escândalo.

Hoje vou conhecer as Lineas de Nazca. Vamos ver. Amanhã sigo para Lima.

Ontem um fato ocorreu que me atrasou este relato. Estava jantando num restaurante para turistas, e de repente comecei a ouvir soluços de uma mulher chorando desesperada. Achei que era namorada ou mulher de algum garçom. Mas o choro não parava, e uma hora ouvi que a mulher chorando falou algo em português indicando claramente que era brasileira. Terminei rapidamente de jantar e fui perguntar a ela o que estava acontecendo, pois estava desesperada e sozinha. Haviam levado sua bolsa que ela tinha pendurado na cadeira enquanto esperava o jantar. Levaram tudo, documentos, dinheiro, cartões, máquina fotográfica, celular ... Bem, enquanto eu escutava o choro, pensava: é a minha hora de ajudar. Um dia antes tinha recebido um relato de motoviagem do Gugu, um senhor que está acompanhando minha viagem, e ele contou que um motociclista de SP foi assaltado no trecho Puerto Suárez a Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, e um estrangeiro o havia ajudado pagando a conta do hotel e lhe dando duzentos dólares. Pois dito e feito. Senti que a coisa estava para mim mesmo. Então iniciamos um longo caminho entre tentar bloquear os cartões (ela não havia trazido cópia nem de documentos nem dos cartões), ir à polícia, reconhecer possíveis suspeitos etc.. A garota tinha 19 anos apenas e fazia a mesma viagem que fizemos eu, o Júlio, o Cé e o Rodrigo em 1995. O restaurante nos ajudou muito. Depois que ela se acalmou ligamos para sua mãe em SP, que conseguiu bloquear os cartões, porque nós não tínhamos o número do banco em questão. Pra resumir, já era tarde da noite quando providenciamos um quarto de hotel e algum dinheiro para que continuasse a viagem. Fiquei contente por ter ajudado. Lembrei da nossa filha na Nova Zelândia, que poderia passar por apuro semelhante. Prometi à mãe dela só deixa-la quando estivesse tudo resolvido, e agora há pouco deixei-a dentro do ônibus para Lima. Detalhe: fomos fazer o reconhecimento e acompanhamento da revista no quarto de um suspeito, que era, adivinha: um turista SUIÇO! A polícia peruana desconfiou dele, que estava sentado atrás da moça. kkkk. Isso foi bem embaraçoso.

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