Viagem de moto até o Alaska

De todo modo, após a virada de ano, era hora de recomeçar a planejar concretamente e tomar providências, ou então desistir. Será? Já estava cansado da viagem, isto porque ela não saiu de mim esses meses todos, ficava rodando na minha cabeça involuntariamente, e já estava de saco cheio, pra falar a verdade. Se ao menos eu pudesse resolver tudo de uma vez ..., mas não, era preciso esperar o momento certo de cada coisa, e no Canadá o bicho tava pegando, num inverno rigoroso, sob neve, a menos 20 graus Celsius. Essa era a realidade da V-Strom debaixo de uma capa de plástico no jardim nos fundos da casa do meu irmão, contrastando completamente com o intenso calor de dezembro e janeiro do Brasil.

Um dos pontos essenciais a definir seria: volto rodando ou não?? A idéia inicial era fazer a viagem em três etapas, ou seja, ir a Toronto, no ano seguinte fazer Toronto - Prudhoe Bay -Toronto, e num terceiro ano fazer Toronto a Sorocaba. Isto tudo para aproveitar o fato de que meu irmão vive em Toronto, e então eu teria um lugar para deixar a moto nos intervalos entre as etapas. É que uma viagem assim são cerca de 50 mil quilômetros, exigindo aí de três a cinco meses, vamos dizer, porque, do contrário, não se pode conhecer muita coisa, apenas rodar e rodar. Portanto, em princípio só quando aposentado é que poderia me lançar nisso. E assim temos visto, acredito eu, que a maioria dos motoqueiros – ou motociclistas, como queiram – que tem feito essa viagem já está na casa dos 60, com a vida profissional resolvida e os filhos criados. Mas a minha vontade era tanta, que não queria esperar. Vai saber o que pode acontecer ... E vou ficar sem essa? Qual poderia ser a solução?

Viagem de moto até Toronto no Canadá

Foi então que comecei a tomar contato com relatos de velejadores que, em viagem de volta ao mundo, deixavam o veleiro em algum porto, pegavam um avião de volta para casa, resolviam as paradas todas, e retornavam para seguir viagem meses ou até um ano depois, também de acordo com as condições meteorológicas da estação, o que fosse mais propício. Ora, aí estava o modo de fazer, e organizei a primeira etapa, já descrita no ViagemdeMoto.com. Não me preocupei muito, de início, como faria as demais etapas. Um passo de cada vez, não é?

Ocorreu que, ainda em 2012, chegando ao Canadá pela Ambassador Bridge, que liga Detroit nos EUA a Windsor, em Ontário, a aduana não permitiu deixar a moto mais de uma vez lá no Canadá. Aliás, já foi bem difícil que me autorizassem deixá-la uma única vez. Tive que responder a muitas perguntas, sobre as quais já tinha bem antes decidido dizer a verdade do que fosse perguntado. Obtive uma resposta afirmativa dos canadenses, mas com uma exigência de depósito de 500 dólares. Ali teve fim, pois, a idéia sobre o que seria a tal terceira etapa. E ainda me impuseram uma data limite para retirar a moto do Canadá, que era 07 de julho de 2013. Portanto, saí amarrado de lá.

Disso resultou que, ou eu faria de Toronto ao Alaska retornando logo em seguida de moto a Sorocaba, tudo de uma vez só, ou eu iria ao Alaska de moto, mas daria um jeito de mandá-la de volta por navio ou avião a partir do lugar em que isso fosse mais fácil. Também tinha a possibilidade de simplesmente deixá-la irregular no Canadá e trazê-la de volta rodando em qualquer outro verão que me aprouvesse, na maior cara dura. Não fiquei confortável com essa idéia. Achei muito inseguro. Traria muita incerteza que se arrastaria por muitos meses. E ainda poderia desistir de ir ao Alaska, por que não? Não devia satisfações sobre isso a ninguém. Mas a sério mesmo essa idéia nunca me passou. Confesso, contudo, que cogitei, mas também não a sério, de simplesmente abandonar a moto em qualquer lugar e voltar de avião. Devemos considerar que voltar rodando teria de ser feito pelo mesmo caminho da ida, para ser mais rápido, e isso pode ser uma coisa bem chata. Passar pela América Central tudo outra vez ... Essa uma das razões para tantas questões que borbulhavam na minha mente.

Indagando a mim próprio qual era a minha real vontade, a resposta firme vinha da alma e era fazer a viagem inteira de uma só vez, atingindo o extremo norte do Alaska e retornando a Sorocaba com a moto devidamente sob a minha bunda. Mas quanto tempo isto iria demandar? E os compromissos, a família, como ficariam?

Pesquisei modos de transportar a moto dos Estados Unidos para cá e não encontrei nada certo na internet. Perguntei aos aventureiros que pude identificar e ninguém me retornava, com exceção do Policarpo Jr., do Rockriders.com.br, e do Erik Carnevalli, da Alive Eco Hut. Sou muito grato aos dois.

Seguindo as indicações que obtive, primeiramente contatei o Sr. Gaston Etchart, de Miami, para transporte de navio a Santos. Suas respostas demoravam muito, e acabei não conseguindo nem mesmo um orçamento dele. Além disso, o ideal seria ir a Miami, que era tão longe que praticamente dava no mesmo de voltar ao Brasil. De Seattle ou Los Angeles saía navio também, mas acho que teria ficado muito muito caro. Também podia ser de Houston ou Jacksonville, mas nada disso eu cheguei nem perto de conseguir esquematizar. Outra indicação foi o Joe, da Hazard Material Express, de Chicago. Houve uma série de problemas na comunicação, até alegação de que teve vírus no computador dele etc etc., e consegui um orçamento caríssimo (de qualquer jeito isso é caro mesmo); ao pedir um orçamento alternativo, acabou que este jamais foi enviado. Sempre muita demora em responder. Tudo isto se arrastou por meses, de tal modo que decolei para Toronto com o contato do Joe e com a passagem aérea de Chicago a São Paulo, tudo para um eventual transporte da moto.

Eu sabia também que, chegando a um terminal de carga de qualquer aeroporto internacional, eu poderia procurar a Fedex, por exemplo. Mas já estava alertado de que o serviço é complicado e você precisa providenciar uma embalagem para a moto, você mesmo. Tipo: pega umas madeiras aí, serrote, martelo e pregos, e faça uma caixa pra sua moto. Ou então vai até aquele cara aí do lado e vende sua mãe pra ele fazer uma caixa pra você.

Entre tantas dúvidas, ambos os meus conselheiros, Policarpo e Erik, foram unânimes em afirmar que o ideal é sempre voltar rodando, SE puder. São dramáticos os relatos de quem aguardou meses a liberação das motos no Porto de Santos, e sobre o quanto tiveram que gastar. De modo que isto me deu a certeza do que eu devia fazer, mas não a certeza do que eu podia fazer.

Iniciei o traçado da rota, pelo Google Maps. Obtive as distâncias. Nossa! Era muita coisa para tão pouco tempo. Mais de 30.000 km. Praticamente não haveria folga livre nessa programação – o que creio deva ser aquilo que se chama de caminho crítico –, a não ser suprimindo o turismo que poderia fazer, caso tivesse imprevistos. E foi nisso que me fiei. Rodar e rodar em prejuízo de aproveitar as minhas estadas, se fosse o caso. Mas isso é viagem? Ora, era a minha.

Pensava sobre o computador e me sentia ingênuo de planejar algo fora da realidade, inexeqüível. Muito porque, além dos perrengues que surgiriam naturalmente, o turismo que eu faria, e de onde poderia tirar tempo extra para emergências, já era bem pouco. Quando muito ficaria três noites num mesmo lugar. Isto acabou acontecendo, na realidade, somente em Banff no Canadá. De resto, mesmo em lugares incríveis, fiquei apenas duas noites. Agora posso dizer que foi uma maratona, uma gincana, um perereco, com toda certeza. Mas voltaria a fazer tudo outra vez. Não hoje ... nem amanhã ... uma outra hora talvez ...

Voltando ao ponto, não queria iludir a mim mesmo apenas para dar vazão a um sonho de viagem que, se mal planejada, poderia resultar em tragédia. Mas uma coisa eu tinha: a experiência do ano anterior. Afinal, tinham sido 18.100 km incluindo Brasil e América Central, coisa grossa, e eu sabia a média de quilometragem que seguramente era capaz de fazer. Além disso, desta vez eu rodaria uma grande parte pelo Canadá e pelos Estados Unidos, onde é possível fazer tranquilamente 1.000 km por dia.

O próximo passo foi ler bastante. Oh, preguiça!!! Deve-se procurar o que fazer pelo caminho. Tenho muitos guias de viagem, mas pouca vontade de lê-los, exceto quando já estou no meio da viagem. O que gosto mesmo é de estar na estrada sobre a moto, enxergando o horizonte, e isso já bastaria. Mas alguma coisa tem que conhecer. Tem-se que dar um sentido à rota, de uma forma inteligente, pelo menos o quanto minha capacidade possa permitir. Depois é preciso combinar distâncias possíveis de se fazer, pontos de interesse para o viajante, e cidades boas para dormir. Isto concluído, faço uma lista com as cidades de cada pouso, o tempo de permanência, e tenho mais ou menos anotado o que fazer em cada lugar. Então resulta um traçado, uma rota, e seja o que Deus quiser!

Essa parte do planejamento pode tomar muitas horas. Não gosto de mistificar essa coisa do planejamento. Procuro não buscar mais informação do que eu possa absorver em tempo hábil para extrair conclusões razoáveis, apenas razoáveis. Muita informação, muitas opções ou alternativas, acabam tomando muito tempo e mais confundindo que ajudando. Você pode ficar paralisado diante de tantas possibilidades. Essa é a minha opinião. Por isso é tão difícil planejar uma viagem a dois, ou, pior ainda, em grupo.

No caso desta etapa, me lembro de ter ficado umas 15 horas no computador, diretão, com todos meus guias de viagem sobre a mesa, ora consultando um, ora outro. É preciso checar na internet se cada trecho escolhido é viável, particularmente aqueles mais suspeitos, onde há por exemplo desertos, distâncias muito longas sem cidades grandes, pois pode não haver postos de gasolina – coisa muito rara por sinal –, ou a estrada pode ser muito ruim, ou há relatos de violência etc.. Temos tudo isso no computador hoje, graças aos relatos que vão fazendo, vindos de toda parte. Praticamente de tudo se encontra. Depois dessas 15 horas, eu já tinha as datas certas, a rota, cada pouso, pontos de interesse, sabia de onde tirar tempo extra, caso fosse necessário, sem prejudicar o tempo total estimado, sabia enfim que podia dar pé. Imprimi cada trecho da viagem que o Google Maps me mostrou, e mandei encadernar pra levar na bagagem. Estando agora a viagem devidamente dimensionada, quantificada, sabia que com jeito e responsabilidade poderia temporariamente adequar minha vida ao redor dela, sem prejuízo de nenhum aspecto. Tudo tinha se iluminado, ao menos em teoria.

Enquanto isso lia os posts do "Alaska Expedition" no ViagemdeMoto.com. Muito legal, e muito útil. Era a viagem do Artur Albuquerque e seu amigo Robertinho desde o Rio de Janeiro até Prudhoe Bay. Depois acompanhei os relatos da Expedição BH – Alaska de Harley-Davidson, do Fernando Duarte e Rui Barbosa, sendo que tinha esperança de encontrá-los no meu caminho, o que não aconteceu.

Outra coisa que resolvi fazer foi estudar inglês. Na ida de moto a Toronto, no ano anterior, isso nem me passou pela cabeça. Eu só fui preocupar mesmo com isso na véspera de chegar aos Estados Unidos. Foi quando me dei conta. Era tanta coisa até chegar lá, que realmente não me caiu essa ficha. Me lembro de que, em Antígua, tinha encontrado alguns turistas de língua inglesa, e percebi que não andava nada bem o meu inglês. Eles queriam saber da minha viagem, e agora devo admitir que eu pouco podia explicar. Nas estradas no México fui rememorando algumas coisas básicas do colégio, mas quando chegou no primeiro hotel norte-americano, em Kingsville, Texas, não entendi uma palavra da atendente. Mostrei meu cartão de crédito, disse Yes Yes, ok ok, e rezei para que a facada na fatura não fosse letal.

Fiz o curso à distância, pela internet, e foi bem legal. Estudei por seis meses e isso ajudou muito. Nos primeiros dias no Canadá ainda foi difícil. Depois as fórmulas da língua inglesa ou o modo como as frases usualmente são construídas vão ficando mais automáticos e mais fáceis de saírem. Enfim, a gente vai acostumando. Já para uma conversação mais longa, a coisa ainda está precária. Nada que mais umas dez viagens dessas não possam resolver.

Exercícios físicos. Também fazia exercícios, bicicleta e corrida, pra agüentar mais de doze horas por dia na moto.

Sozinho pelas Américas

Meu amigo Alysson havia sinalizado com a possibilidade de se engajar na trip para esta segunda fase. Contudo, teria de superar alguns obstáculos logísticos e familiares. Seria preciso alugar uma moto, ou comprá-la lá no Canadá ou EUA. Teria que resolver tudo isso à distância. E não teria como voltar rodando ao Brasil, a menos que admitisse que a moto aqui virasse sucata, pois não há como legalizar uma moto estrangeira usada. Ou seja, se alugasse a moto, deveria devolvê-la em alguma outra cidade americana ou canadense e, se a comprasse, teria de vendê-la de alguma forma no mesmo país da aquisição. Havia também a questão de data, que para mim já estava definida pela própria autoridade aduaneira no Canadá, não havendo, por isso, flexibilidade que permitisse a ele ter mais facilidade na adesão aos planos. Mas o que contou mesmo é que ele resolveu priorizar a perpetuação de seu DNA neste mundo, tanto que agora já está no segundo filho. Assim, com criança pequena, realmente seria uma temeridade com a família.

Cada um com seu destino e, então, eu já sabia que estaria sozinho novamente.

É bom poder estar no total controle da viagem. Eu gosto de viajar sozinho, e assim já o tinha feito muitas vezes antes. Mas é chato não ter alguém para falar sobre como foi o dia nas estradas, contar os causos, alguém para dar boas risadas juntos.

Bagagem

Quando olhei para minha moto na largada em 2012, estava parecendo uma nave espacial. Eram três malas da Givi, top case e dois sides. Como a moto ficou no Canadá entre 2012 e 2013, bem como as duas malas laterais, isto me vinculou para a segunda etapa. Assim, se cometi algum erro no começo, isto refletiu até o final, pois acabei não abandonando praticamente nada por aí. Eram a minha “tripulação”.

Esse tema é assim, sempre rende dúvidas e controvérsias. É muito pessoal, é verdade, e não existe uma fórmula, mas creio que já obtive a minha própria.

Em primeiro lugar, quanto às roupas, não importa o tamanho da viagem, concluí que só devo levar duas mudas. Duas camisetas, dois pares de meia, duas cuecas ... Eu levei seis mudas na primeira etapa, de 18.000km, e sobrou roupa sem usar.

É que todo santo dia na estrada usamos a roupa de cordura. Essa sim fica numa situação miserável. No mais, chegamos à noitinha, ou no final da tarde, em algum lugar deste mundão, e aí, após um banho, é que colocamos as roupas civis. Não demora muito, estamos dormindo, e, então, o uso dessas roupas é muito pouco. Quase não sujam.

Meias e cuecas vão-se lavando no chuveiro do hotel conforme for achando necessário, o que pode ser uma questão muito subjetiva! Pelo sim, pelo não, o ideal é levar cuecas marrons.

E não adianta tentar relacionar aqui tudo o que se deve levar. Há listas na internet, mas eu já pesquisei e achei que não serviam para mim. Mesmo assim recomendo fortemente levar uma bota do tipo topa-tudo, que amarrei com elástico na garupa, uma roupa tipo segunda-pele, para o frio, uma blusa de lã, um agasalho bem quente, uma jaqueta Quéchua impermeável e capa de chuva para motoqueiros.

A roupa de cordura, apesar de prometer ser “resistente à água”, não resolve o problema da chuva. É a famosa semi-impermeável. Piada. Então, quando começa a chover, eu ponho a capa de chuva por cima da cordura. E dá muito certo, embora fique sempre aquela dúvida quando se está nas estradas: será que vale a pena parar pra por essa merda dessa capa? Aí, quando você vê, já está em sopa e não adianta mais parar ... Tem isso também.

Mas em se tratando do que levar, antes de qualquer coisa leve uma moto bem revisada. Assim não precisa levar muitas ferramentas e peças sobressalentes. No meu caso não adiantaria mesmo, porque não saberia como usá-las. Depois você precisa levar o seu próprio corpo saudável pra agüentar fazer mil ou até mais quilômetros por dia. Depois disso o mais importante são os documentos. Quando se vai atravessar quase todo o continente americano, é bom estar bem informado sobre isso. Dinheiro é fundamental. Dólares. É isso o que pode fazer a diferença nos apertos. O resto, ainda que venha a se extraviar, não impede a viagem.

Muita gente pergunta dos documentos, e eis aqui o que tinha na carteira ou na minha pastinha:

  • Passaporte com vistos americano e canadense;
  • RG; identidade do trabalho;
  • Carteira de habilitação/PID;
  • Documentos da moto, certificado de propriedade e licenciamento novo, nota fiscal;
  • Carteira internacional de vacinação;
  • Cartões de crédito internacionais;
  • Manual da moto;
  • Admissão temporária da moto no Canadá, documento expedido pela aduana canadense no ano anterior;
  • Seguro saúde;
  • Passagens aéreas de ida e volta;
  • Reservas (só tinha para o Denali Park no Alaska);
  • Carta de imigração (é um convite para ingresso no Canadá);
  • Rotas/Mapas;
  • Guias e informações;
  • Micro SD Card do GPS, com mapas da América do Norte e do Sul;
  • Caneta esferográfica, caneta grifa texto, calculadora;
  • Cópias de passaporte, documento da moto, carteira de habilitação, cartões de crédito, admissão temporária da moto.

O seguro SOAT para Peru, e os demais seguros obrigatórios que vão sendo exigidos, podem ser adquiridos nos países mesmo. Não adianta querer comprar antes, como a carta-verde da Argentina.

Desta vez mandei fazer um adesivo alusivo à viagem, para distribuir pelo caminho. É uma atitude útil para demonstrar respeito e simpatia. É legal de colocar nos postos por onde passa. E eu deixei um lá em cima, no Posto Tesoro, em Prudhoe Bay. Quando você encontra adesivos dos outros brasileiros, sente-se mais confiante. Passa uma energia boa.

Fora isso, o que levei e que foi realmente útil: um GPS Garmin Nuvi 40 com mapas da América do Norte, o que inclui o México, e mapas do Panamá e América do Sul. Máquina fotográfica. Lanterna. Bisnagas de graxa branca. Cintas plásticas conhecidas como tairapes ou fitas Hellerman. Fita silvertape. Pano e funil. Spray desengripante. Bomba de ar elétrica que liga no 12 Volts da moto e que serve para calibrar os pneus. Elástico tipo aranha.

As ferramentas recomendo levar só as que são necessárias para esticar corrente e trocar óleo e filtro. Certo, é bom levar um canivete e uma chave de fenda. Além disso a moto já tem suas próprias ferramentas. Eu levei ferramentas demais. Eu tinha chaves de todas as medidas, uma porção de coisas, que pesaram bastante.

Outra coisa muito útil foram dois potes de sorvete vazios que levei, um dentro do outro. É ótimo para colher o óleo do motor nas trocas. Após esgotar o óleo nesses potes, você põe o funil nas embalagens do próprio óleo novo, e põe o óleo usado nessas embalagens, fechando bem e jogando tudo no lixo. Serviço limpo, que não compromete o meio-ambiente nem chateia ninguém.

Claro que devemos sempre levar reparos para furos no pneu e aqueles sprays de encher. Seria uma irresponsabilidade não levar. Mas eu não precisei disso em 50.000 km. Muita sorte.

Também levei na garupa, junto com a bota topa-tudo, um galão vazio de 10 litros, para por gasolina extra. Só usei entre Puquio e Abancay, no Peru, pois lá é um trecho punk. Mas agora na volta observei que há gasolina sim. Só que tem que ficar muito atento.

E tem também as coisas mais inúteis que levei: barraca, isolante térmico e saco de dormir. Estavam no side case esquerdo, que eu apelidei de “mala das inutilidades”. Essa barraca já viajou uns 80 mil quilômetros e eu jamais a utilizei. A única vez que a abri foi na revista que o Exército fez para pôr a moto no avião da Colômbia para o Panamá. Ainda bem que consegui dobrá-la novamente.

O que eu não levei: computador e celular. Não é o meu forte. Costumo usar os desk tops dos hotéis. Nos EUA e Canadá isso é mais difícil de encontrar. Então usava telefones públicos, ligando a cobrar.

Muitos meses antes da viagem eu já tinha uma lista com cada item, e o que ia em cada mala. Um exercício mental lazarento de ter que tentar enxergar tudo no abstrato, no campo das meras conjecturas e hipóteses, um trabalho de vidência e futurismo. Eu até levei na viagem uma cópia dessa lista, e na medida do possível sempre deixava as malas arrumadas da forma como originalmente idealizadas, trabalho de todo dia, que era pra poder achar facilmente uma coisa se precisasse dela.

Hoje, se fosse fazer isso tudo novamente, acredito que a bagagem consistiria apenas de um top case e algumas coisas amarradas na garupa. Ou então só levaria mochila mesmo, no lugar do top case Givi.

Quanto menos coisas levarmos, maior é a nossa liberdade, pois haverá menos coisas para você se responsabilizar. Principalmente, com as malas laterais, você não pode passar entre os carros, o que vai pesar muito quando estiver passando por Lima, Bogotá, Manágua e Guatemala City, cidades com um trânsito infernal. É como na vida: queremos acumular tudo, guardar para as incertezas do caminho, sempre soprando no ouvido aquela conjunçãozinha condicional SE. Marrrdito “Se”. Ser imprevidente também não dá. Como em tudo, o segredo está em encontrar o equilíbrio.

A moto

Isto tudo resolvido, era hora de acertar a revisão da moto. Faltavam então uns dois meses para a relargada. Eu já tinha uma lista de itens que o Tio Sam, mecânico da moto, tinha me passado, e mais o meu amigo Gerson, professor de Mecânica de Motos. Tive que traduzir para o inglês todos os itens. Foi até divertido. A vela, por exemplo, é “spark plug”. Caixa de direção é “steering box”. Rolamento de roda é “wheel bearing”. Pastilhas de freio: “brake pads”. E por aí vai.

Lá nos subúrbios do Canadá, de bairros calmos e casas quase iguaiszinhas, as garagens podem guardar de tudo, e muitas vezes não sobra espaço para os automóveis. É sério. É muita tranqueira. Deve ser alguma coisa cultural, aliada ao fato de que os proprietários por lá têm que saber fazer um pouco de tudo na manutenção de suas casas, porque não há quase mão-de-obra, ou é muito cara, e aí precisam de muitas coisas e ferramentas. Na Roxburry St. não é diferente e, assim, a V-Strom passou uma longa temporada no jardim dos fundos, sob um frio de – 20º C entre dezembro de 2012 e fevereiro de 2013. Depois disso não funcionava mais. Era preciso, pois, uma revisão muito importante.

Eu tinha um endereço de uma concessionária Suzuki em Toronto. Deixei com meu irmão, pra que ele fizesse o contato. Mas depois percebemos que muitas dessas concessionárias são lojinhas pequenas, que mais servem para consertar “snowmobiles”. Vai daqui e dali, pesquisando no Google, encontrei a Cycle World Superstore, na 4545 Sheppard Avenue East, Scarborough, Toronto.

Mandei e-mail e o Sr. John Pugh, proprietário, me respondeu prontamente. Senti firmeza. Aprovado o orçamento, ele foi buscar a moto na casa do meu irmão. Aí o Peter, mecânico, fez a revisão sob supervisão de seu chefe Bill Tomlin.

Para não ter que gastar mais com o transporte da moto de volta ao subúrbio em Markham, combinamos que eu pegaria a moto lá mesmo na oficina, na segunda-feira cedo, logo que eu chegasse a Toronto. De lá eu partiria direto para a grande viagem.

Comentários (2)

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Salve Wagner, também estou fazendo a viagem com você lendo a sua história! Nessa segunda e última etapa você pareceu estar mais preocupado do que na primeira, antes você encarou tudo numa paulada só e sem GPS. Mas deu para ver que o espírito aventureiro falou mais forte de volta. Faltou uma GoPro para filmar uns trechos!! ;-)

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Muito bem descrito o famoso dilema entre o planejamento e o prazer na prática. Já diz o ditado, jovens motociclistas planejam um roteiro e o seguem, velhos motociclistas escolhem uma direção e vão... Parabéns pelo texto e não é somente vc que sofre com a falta de tempo para uma viagem desta antes da famosa APOSENTADORIA.

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