Viagem de moto pela Cordilheira dos Andes

Amanheceu fazendo muito frio em Putre, uma pequena cidade chilena que fica a 3.600 metros de altitude, Próximo à divisa com a Bolívia. Comemos alguns biscoitos, bebemos água e deixamos a pensão simples onde estávamos hospedados. Nosso quarto era este da foto acima. Com muita dificuldade conseguimos tirar as motos do estacionamento. Tinha piso de brita, um pequeno aclive e nenhuma área para manobras. Aproveitei para colocar a bandeira do Chile na moto.

Pegamos uma estrada com muitas curvas, névoa intensa e pedras soltas sobre o asfalto que caíram das encostas.

Avançamos lentamente até que chegamos a uma região mais baixa, o tempo abriu e a estrada melhorou bastante. Chegamos ao Deserto do Atacama. A estrada ficou muito melhor, permitindo que desenvolvêssemos uma velocidade muito boa. As grandes dunas de areia e cascalho circundam grandes vales onde correm rios, à beira dos quais existem fazendas com plantações.

Em um determinado momento, absorto em meus pensamentos, olho para baixo e vejo uma fita preta balançando ao vento e saindo por debaixo do pára-brisas da moto. Logo reconheço ser a fita que levava presa à câmera que havia perdido ontem. Não sei como ela deslizou para baixo e ficou presa entre o pára-brisas e a mesa da moto. Parei e comemorei a recuperação da câmera, não só por ela, mas principalmente pelas fotos, como as que mostram o "emplacamento" das motos na Bolívia.

Depois de abastecer e fazer um lanche num posto, continuamos nossa viagem pelo deserto, agora subindo até 2.000 metros de altitude. De vez em quando apareciam grandes vales que, para transpor, tínhamos que descer pela encosta arenosa até 1.700˜1.800 metros abaixo, subindo em seguida até o nível anterior.

de repente começamos a passar por trechos de asfalto molhado. Achei estranho, pensando a princípio que poderia ser algum caminhão que espalhara água sobre a pista. Mas comecei a perceber que o céu estava coberto de nuvens negras. Eu me lembro que da outra vez que estive por aqui o céu estava completamente azul. Nuvens não são comuns no deserto mais árido do mundo. Será?

De repente, chegamos num trecho em que a estrada estava interrompida e um grande rio de lama cobria o asfalto, correndo de um lado para o outro. Havia uma placa indicando que a passagem era somente para caminhões.

Paramos e eu fui avaliar melhor. Voltei e falei para o Marcelo para esperarmos pelo menos um carro atravessar para ver como se comportaria. Passou um caminhão e logo depois um 4X4. Parecia tranquilo. Perguntei ao Marcelo o que ele achava e ele respondeu: Não dá para voltar daqui. Vamos em frente. Combinamos que eu iria primeiro e se conseguisse filmaria a passagem dele. E foi o que fizemos. Tanto as motos como nós saímos bastante respingados.

Continuamos pelo deserto e começamos a ficar preocupados com o combustível. Já havíamos percorrido mais de 300 km de muita subida e descida desde o último abastecimento sem ver um único posto e estávamos agora em uma subida muito íngreme em direção a Calama. A luz reserva acendeu, o indicador de autonomia já mostrava low e ainda tinha mais subida pela frente. Vagarosamente passamos pelo ponto mais alto e começamos a descer. As motos chegaram no posto quase sem gasolina, 328,5 km depois do último abastecimento.

Passamos por Calama com o sol se pondo. Ainda faltavam mais de 100 km, mas a estrada tinha voltado a ficar muito boa. Aceleramos para chegar logo ao nosso destino, San Pedro do Atacama. Elegemos um carro como coelho e o acompanhamos à distância, mantendo a mesma velocidade que ele. Tudo corria bem até que de repente pensei que o carro havia parado mas a noite no deserto confunde muito as distâncias. Sem luz alguma no céu, nem lua, nem estrelas, retas enormes. Estávamos descendo, o Marcelo mantendo uma boa distância atrás conforme combinamos, pois seu farol estava desregulado e me atrapalhava. Olhei para o GPS e a velocidade que eu estava era de 126 km/h. Olhei de novo e parecia que as lanternas traseiras do carro / coelho estavam aumentando de tamanho. Comecei a diminuir desacelerando e pisando no freio traseiro e de repente a moto saiu de traseira. Começou a espirrar algo sobre o pára brisas da moto, depois em mim, olho com atenção e vejo o piso cheio de barro. A moto continua dançando de um lado para o outro. Começo a visualizar o carro à frente, agora não somente a lanterna, mas toda a sua silhueta. Ele havia parado no meio de um rio que atravessava a pista. E eu me aproximando, sem conseguir parar a moto. Faltando pouco para colidir com sua traseira o carro arranca. Passo pelo rio de lama e ando mais doze quilômetros até San Pedro com a certeza de que havia acabado de me livrar de um acidente.

Chegamos em San Pedro e a cidade estava um caos. Lama para todo lado. O que antes eram ruas de terra poeirenta, agora estavam cobertas de grandes lagoas. Paramos para conversar antes de ir procurar um hotel. Olhem na foto abaixo como chegamos no hotel em San Pedro.

Havia chovido por quatro horas seguidas em San Pedro de Atacama. Um cara com quem conversei disse que mora lá há 20 anos e nunca havia visto isto acontecer. Disse a ele que foram dois mineiros que levaram chuva para o deserto.

Números do dia:

Distância percorrida: 890,2 km
Distância total: 7.690,9
Gasolina: R$ 103,61
Valor por litro: R$ 2,47
Lanche: R$ 12,60
Hospedagem: R$ 35,00
Jantar: R$ 44,80

Comentários (16)

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Romulo, obrigado pelo retorno. vou ler com cuidado, se houver alguma duvida a mais, posso consultar? abraços Ocimar

Rômulo Provetti Admin Author
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Olá Ocimar, o relato completo da viagem está no seguinte link: [URL]http://www.viagemdemoto.com/index.php?option=com_content&view=category&id=171&Itemid=350[/URL] Tem uma postagem com o roteiro da viagem e algumas planilhas com distância, locais de parada, hotéis, etc. Você terá que ler o diário para ver o que aconteceu. Precisando, estou à disposição. Abraços

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ola amigo, estamos planejando fazer essa viagem em junho,vi alguns que foram via Argentina e Chile, voces fizeram qual caminho?, de onde partiram, quantos km. andaram, que dicas voces dão, podemos falar mais sobre essa viagem, roteiros, locais que pararam e etc

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entao ,nao foi só nos que levamos chuva ao atacama nao?estivemos ai entre os dias 29e 30 de janeiro e qdo chegamos a cidade era um barro só.lambrecamos todas as nossas motos.e que aduana porquera essaaí heim?sou de ipatinga e ja falei contigo pelo telefone.fiz a viagem ao chile entre 24 de janeiro e 11 de fevereiro.tenham uma boa viagem de volta.

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Que bom que achou a maquina. Também estarei na primeira fila.

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Valeu Rômulo. Curta bastante. Você merece. Seidel.

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NÃO HÁ MAIS UMA GOTA DE DÚVIDAS: IRONMANS! A vida é curta sô! E as estradas da América do Sul? Prá mais de légua! Vão rodá! Com chuva, lama, neve e tudo o mais!

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Eu já sabia que os mineiros eram bons de chuva, mas não tão bons assim. Fazer chover no deserto do Atacama não é pra qualquer um. Estive lá em dezembro de 2010 e vi como o local é árido. Por falta de um melhor elogio, só me resta dar-lhes os parabéns. Temos pensado em criar uma empresa só de motociclistas "pé-de-pato", com o objetivo de acabar com a seca no nordeste. Vocês já estão convidados a serem sócios. O relato está ótimo e já está me auxiliando muito no planejamento de uma viagem até Cuzco, Puno e Uyuni. Boa sorte! Do também mineiro de Juiz de Fora, José Nilton

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Eu e Luciano continuamos a seguir vocês em suas aventuras. Se nós estamos emocionados, imaginem vocês.Terão histórias para contar pelo resto de suas vidas. Continuamos torcendo para o sucesso da viagem. Lidia e Luciano

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Rômulo, Fantástica a viagem de vocês. Muita habilidade, aventura e emoção. Você narra a história com tanto suspense que fico aguardando o dia seguinte para continuar lendo. Que Deus continue iluminando vocês. Abraço Martinho

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Caras, essa é uma das viagens mais loucas que já vi..... Rômulo, pode ir preparendo uma apresentação da aventura, pois estarei na primeira fila pra assistir. Muito cuidado e atenção sempre. Um grande abraço e até mais. Marcelo Sousa

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Sempre surpreendente... Vocês não têm gastos nessa viagem, mas investimentos e consequentemente muitos ganhos... Não existe uma viagem igual a outra, e cada uma nos oferece além de lembranças, muito aprendizado. Obrigado por compartilharem conosco esse experiência magnífica.

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E aí, meus irmãos? Pensaram que rapadura é doce? É doce, mas não é mole! Graças a Deus, vocês seguem bem essa grande aventura, fico feliz por vocês. Entretanto, há que se pensar numa ambigüidade: nem toda aventura é pra aventureiro. Não houvesse preparo e conhecimento, haveria muito problema. Continuam ótimas as fotos e as narrativas. Grande abraço. Helder

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Romulo e Marcelo, tenho acompanhado atentamente a grande aventura de vocês, simplesmente fantástica, regressem com a proteção Divina! Forte abraço do amigo PHD Carvalhais...

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Romulo Estou em Porvenir no Chile e li seu relato dos ultimos dias. Estou impressionado com tantos eventos. Parabens, e certamente teremos longos papos para contar detalhes nao relatados por ai e por aqui. Um grande abraco para voces. Ruy Barbosa (PHD Ruyzao) - Ushuaia Superacao Luciano, Ivan, Ruy

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Pô caras, se vocês fizeram chover no deserto de Atacama, imaginem o temporal que vocês podem provocar na caatinga nordestina. HEHEHE. Agraços.

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