Viagem de moto - Lagoa do Abaeté, Salvador

O lambretista que os ajudara no dia anterior voltara na manhã do dia seguinte para levá-los a uma oficina de motos, onde fariam limpeza no carburador e no magneto, por parecer que este estava prejudicando o contato da partida no quique.

Ficou algum tempo na oficina conversando e dentre outras coisas disse ser integrante da diretoria do Moto Clube da Bahia, entidade que na época congregava muitos adeptos desse esporte ali em Salvador.

Por ter de cumprir algum compromisso, ficou combinado que à noite voltaria ao hotel para encontrá-los e saiu.

Terminado o serviço na oficina, o pessoal disse que tudo estaria por conta do Moto Clube. Agradeceram o que fizeram, diante de tal gentileza.

Por ser ainda cedo, resolveram dar um passeio até a praia de Itapuã, porque várias pessoas e até o pessoal da oficina diziam ser um passeio imperdível. Sim, essas eram as palavras deles. Afirmaram se tratar de local muito bonito e até paradisíaco para se conhecer e que eles não poderiam perder. Assim sendo, tinham de ir até lá verificar.

No caminho, passaram pela praia do Farol da Barra, que certamente assim é chamada devido ao imponente farol existente num determinado trecho da praia, cujo propósito foi e deve ser ainda o de orientar navegantes. De construção muito bonita e com grande destaque na paisagem, tornava o local além de lindo, mais pitoresco e até inusitado devido essa sua peculiaridade.

Próximos a Itapuã já dava para ver as areias claras e os muitos coqueiros projetando acolhedoras sombras aos banhistas deitados em redes e também no chão. Através dos coqueiros e mais ao fundo, viam um imenso e maravilhoso mar azul esverdeado debaixo de um céu limpo e muito claro.

Após deliciarem-se com aquela magnífica vista e estando a famosa lagoa do Abaeté próxima dali, foram vê-la também, porque os comentários se estendiam até ela por afirmarem ser, além de mística e extremamente perigosa era misteriosamente bela e encantadora.

Sem dúvida, trata-se realmente de algo carismático e muito mágico porque, além de ser bela é misteriosa, estranha e enigmática. Quem dela se aproxima, imediatamente sente fortes vibrações e envolventes forças invisíveis que atraem as pessoas para o seu interior. É fantástica! Mística! Inimaginavelmente sedutora. Por isso impossível descrevê-la com fidelidade, mas farei o possível para mostrar o que foi visto e sentido naquele especial momento através do piloto que assim descreveu:

“A areia no seu entorno, de tão branca, chega a agredir a vista devido aos reflexos do sol; coqueiros e suas folhagens que emolduram a paisagem com graça e encantamento, com a força do vento, balouçam produzindo ruídos, tal qual vozes querendo dizer alguma coisa para os visitantes e ao mesmo tempo hipnotizando-os com esse som de encantamento; suas águas, muito claras junto às margens, devido ao contato com a areia branca, vão escurecendo da extremidade para o seu centro, num contraste que causa estranheza aos visitantes em razão desse incrível fenômeno; e tão encantadora se torna com esse somatório de mágico misticismo que atrai a todos para nela entrarem, esquecidos que ficam dos perigos nela existentes.”

Nesse momento lembrei-me da musica de Dorival Caymmi, onde em certo trecho ele diz: ... “No Abaeté tem uma lagoa escura, arrodeada de areia branca, ô de areia branca, ô de areia branca...”.

Notei lavadeiras na margem lavando roupas e também algumas crianças brincando nas areias claras como neve, mas todos na beira da lagoa sem se atreverem entrar, possivelmente em respeito à sua lenda que avisa: “Pessoas que nela entram nunca mais retornam”.

E por fim verifiquei haver árvores baixas com verdes folhagens rasteiras em determinados locais à sua volta, dando um toque ainda mais bucólico a esse inesquecível local.

Por ser tão especial e emocionante, aconselho turistas e estradeiros para visitarem o local. Parece que ali toda e qualquer energia negativa que conosco trazemos são eliminadas, permitindo-nos receber novas energias cheias de positividade, renovando nossas forças, dando-nos outra concepção e maior credibilidade às virtuais e misteriosas forças existentes na natureza.”

Saindo então de um maravilhoso transe, voltou o piloto à realidade. Notando estar escurecendo, lembrou-se do encontro no hotel com o cicerone do Moto Clube.

Já prontos, aparece o rapaz com sua Lambreta, acompanhado de outros lambretistas e também motociclistas, todos do Moto Clube.

Apresentou os dois estradeiros aos amigos, que alegremente fizeram cumprimentos, parabenizando-os pela aventura. Após apresentações feitas, pediu que os acompanhasse na caravana por haver uma surpresa preparada para eles. Imediatamente então piloto e garupa subiram na moto e os acompanharam.

No caminho, iam surgindo outros motociclistas e lambretistas do Clube ou não, que entrando no comboio engrossavam a caravana. Após algum percurso chegaram à sede do Moto Clube, identificado por um pequeno letreiro na frente da casa.

O presidente do Clube, satisfeito com aquele momento, mandou que providenciassem bebidas para todos e em seguida celebraram essa visita.
Fora uma singela homenagem que lhes prestaram, tendo inclusive o lambretista discursado em nome de todos. No final, piloto e garupa agradeceram a homenagem.

Encerrada a reunião saíram todos em grupo e se dirigiram para a região das praias em direção à Itapuã, mesma região onde eles estiveram naquela tarde.

A Churrascaria, (motivo da surpresa) ficava em Itapuã, num lugar muito especial na praia, bem próxima do mar e cercada por coqueiros. A noite estava quente, mas era arrefecida por uma leve brisa vinda do mar e o local se encontrava iluminado por um bonito luar.

Escolheram ficar na areia, em mesas do lado de fora do Restaurante onde, sob um céu estreladíssimo e luar maravilhoso poderiam apreciar o mar e receber aquela suave e maravilhosa brisa marinha.

Após se deliciarem com um churrasco bem preparado que iniciou às 23h e terminou às 2h e de terem “jogado muita conversa fora” (gíria carinhosa), voltaram diretamente para o hotel porque os dois seguiriam viagem no dia seguinte pela manhã.

Era sábado e foram acordados de manhã por vários motociclistas que foram se despedir deles. E tinha ainda mais surpresas porque o hotel já estava pago, tudo por conta do Moto Clube, oportunidade em que ficaram sabendo o nome do Tesoureiro, James.

Maravilha! Era muita gentileza da parte deles. Só tinham a agradecer, não somente por isso, mas também pelo carinho e as homenagens que lhes foram prestadas.

10h50, tudo pronto, partiram retornando no sentido Feira de Santana, mas com a pretensão de saírem da estrada principal, asfaltada, para no meio do caminho entrarem numa outra menor que os levará a cidade de Catu, lugar onde Borges (sócio do piloto na Livrolândia) viveu antes de ir para o Rio. O piloto fez questão de ir lá com o intuito de provar que passara pela terra natal do sócio.

Mas eis que de repente e já na estrada bem adiante, lá vem o Fernando com uma novidade dizendo para o piloto:

“Vamos voltar na Igreja do Senhor do Bonfim? Acontece que eu tenho uma promessa para cumprir e dela esqueci quando lá estivemos”.

O piloto, por sua vez, só poderia dizer:

“Pô, Fernando, você até parece que bebe? Como é que tendo uma promessa para pagar num local (ainda mais num lugar longe) vai até ele e se esquece de pagar essa tal promessa? Parece até brincadeira!”

Mas vendo que realmente deve ter havido “bobeira” por parte dele, ou somente depois que saiu da igreja é que fez a tal promessa, voltaram à Igreja Nosso Senhor do Bonfim.

E sabem o que foi que ele esqueceu? De comprar fitinhas bentas em cores variadas que lhe haviam encomendado! Nem quando comprou a dele quando lá estiveram lembrou-se de comprar as encomendadas.

Mediante tal esquecimento, em tom de brincadeira o piloto lhe pergunta: “Raimundo... você ainda se lembra do seu nome?” (o nome dele, como sabemos, é Fernando). No que riram e foram embora!

A partida, que haviam iniciado às 10h50, só aconteceu ao meio-dia, após terem saído da igreja com as preciosas fitas.

A estrada secundária que pegaram para ir até Catu era de terra e muito maltratada. Fustigada por um sol intenso, a poeira do barro era tanta que perdurava esvoaçando dentro e fora da estrada. Casas que havia pelos locais, vegetações e animais, ficavam todos cobertos com grossa e grudenta camada de poeira marrom amarelada.

Chegando a Catu, logo notaram ser um pequeno povoado com poucos moradores e casas muito modestas. Encontrando uma sombra próxima a um casebre para poder estacionar a moto, com surpresa o piloto vê tratar-se de uma agência dos Correios. Aproveitando a coincidência, enviou para o sócio, dali da terra natal dele, um telegrama comprovando estar realizando a viagem.

Esse foi para o piloto momento muito especial, um verdadeiro achado, por servir para provar sua passagem por ali.

Após ter saído dos Correios, eis que passa por eles montado no lombo de um jegue, um vendedor de cajus, tão grandes que mais pareciam peras. Compraram vários deles, macios, doces e suculentos.

Numa pracinha estavam muitas crianças brincando animadamente com pião, bolas de gude e também pulando amarelinha. Vestiam roupinhas bem humildes, mas o detalhe que lhes chamou a atenção foram os cabelos crespos e alvoroçados das meninas. Notava-se que os cabelos eram assim devido ao sol e àquela perniciosa e incomodativa poeira que o vento espalhava pela localidade.

Dando como encerrada a visita ao local, nova surpresa. Só que agradável desta vez. Descobriram que de Catu até Alagoinhas, cuja distância é de aproximadamente uns 30 km, por mais estranho que possa parecer, a estrada era asfaltada. Possivelmente por já estar a Petrobrás naquela época com instalações nas proximidades.

Chegando a Alagoinhas trocaram o óleo do cárter e aproveitaram para almoçar. Após o almoço e seguindo caminho, dirigiram-se para a cidade de Cipó, onde pretendiam pernoitar.

Aconteceu, porém, que além da demora na viagem devido ao piso da estrada muito ruim depois de Alagoinhas (estavam novamente em estrada de terra), ainda tiveram um erro de cálculo na distância. Razão de ter anoitecido e ainda continuarem na estrada numa região muito deserta. Esses erros aconteciam porque na época não havia telefones celulares nem GPS para os orientarem. Naquela ocasião, GPS eram os passantes, que sendo vistos ocasionalmente nas estradas, os viajantes lhes perguntavam sobre os locais aonde queriam ir.

A noite muito escura por falta de luar e a moto sem farol dificultaram e atrasaram a viagem. Mas dos males o menor, tendo em vista não estar chovendo, o que ajudava muito. Concentrados, prestavam o máximo de atenção para ver se conseguiam achar um local onde pudessem dormir, por ficar difícil e perigoso continuar na estrada. Se houvesse um tronco de árvore, um grande buraco ou mesmo um animal de pequeno porte atravessando a estrada, certamente cairiam com o impacto.

Após alguns minutos trafegando em marcha reduzida (vez por outra viam vultos de bichos correndo assustados de um lado para o outro da estrada devido ao barulho da descarga, coisa que antes não viam em razão da velocidade maior que geralmente andavam), finalmente vislumbraram amarelada e mortiça luz de lamparina adiante e bem dentro da caatinga.

Chegando mais próximo da luz viram um longo caminho no mato, que ia da estrada até um casebre com teto de palha. O piloto parou a moto, Fernando saltou para ir até ao local de onde vinha a tal luz, ficando o piloto na moto, aguardando seu retorno.

Não demorou muito e o Fernando voltou dizendo que moradores da casa até poderiam acolhê-los no casebre, mas por ser o espaço muito reduzido e desconfortável, aconselharam que fossem mais adiante, alguns quilômetros, porque há poucos dias havia chegado um pessoal novo na região e estava abrindo uma estalagem. Se já estivesse funcionando, lá seria bem melhor. Mas, caso não conseguissem achar pousada poderiam voltar e ficar lá no casebre, porque arranjariam um lugarzinho para passarem a noite.

Após ter dito isso, Fernando ajudou o piloto a levantar a moto, que por bobeada dele deixou-a tombar e cair. Dirigiram-se então para a tal estalagem.

Devido ao problema da falta de visibilidade, a distância parecia muito maior que a informada, dando impressão de terem passado do local sem verem a estalagem ou até nada haver no tal local indicado.

Após andarem algum tempo e já sem esperanças viram ao longe luzes bem esmaecidas, o que lhes deu novo ânimo. Contentes com a descoberta, chegaram ao enfim local indicado. “Eureka”, disseram!

Com o barulho do motor e por terem parado em frente à casa próxima da estrada, pessoas assustadas vieram logo atendê-los, porque raros veículos circulavam por ali à noite e motocicleta muito menos. Como precisavam de um lugar só para pernoitar, o piloto imediatamente perguntou se poderiam ficar ali.

Tiveram resposta positiva, mas foram avisados de não ser possível terem um bom atendimento pelo fato de ainda estarem arrumando e limpando o local devido à recente mudança.

Responderam que para eles estava tudo bem, pois o que desejavam era apenas lugar para pernoitar e descansar da viagem.

O preço foi combinado e a seguir foram dormir. Banho, nem pensar! Por estar sendo construído o banheiro, teriam de usar baldes para tomar banho. Como o piso também não estava completado, o chão ainda era de barro. E barro para eles, nem pensar. Sem falar que a luz era de lampião. Muito embora estivessem com fome, dispensaram o jantar.

Eles perguntaram qual seria a cidadezinha mais próxima dali e o proprietário informou ser Crisópolis.

A seguir foram para o quarto dormir.

Motociclistas Invencíveis

Semanalmente vamos publicar, aqui no Viagem de Moto, capítulos do livro Motociclistas Invencíveis, romance extraído de uma viagem com moto ocorrida em 1960.

Conduzindo na garupa da moto um amigo, piloto sai do Rio de Janeiro por estradas de terra a fim de encontrar sua linda namorada, que saindo de Itabuna (BA) para morar no Rio de Janeiro, de repente, da noite para o dia, desaparece sem deixar rastros. Chegando a Itabuna, piloto descobre que ela fugia de assassinos (contratados para matá-la), pelo fato dela ser testemunha do assassinato de seu pai, ex-cacaueiro na região.

Por acontecerem muitas aventuras e novos amores pelo caminho, foram até a Paraíba.

Enfrentaram sol, poeira, chuva e lama. Ajudaram, foram ajudados, acontecendo inclusive que, por levarem uma garota (estava num leito de morte) entre eles dois até ao hospital, salvaram sua vida. Em si, a história mostra como eram os motociclistas Nos Deliciosos Anos Dourados.

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