Viagem de moto histórica - Brasil

Era ainda madrugada e saíram corridos de Ibimirim. Mais adiante, depois de passarem pelo povoado de Moderna e, antes de chegarem ao povoado de Placas, o pneu traseiro furou novamente, fazendo-os parar para consertá-lo.

Receavam que ele não suportasse mais o “rojão”, coitado! Mas torciam para que aguentasse pelo menos até chegarem a Recife, porque lá, com o dinheiro que o piloto iria pedir ao seu sócio através do Banco, iria comprar um novo nas lojas especializadas.

Embora estivesse ainda escuro, por medida de segurança, levaram a moto para um local fora da estrada, obedecendo ao célebre ditado popular “seguro morreu de velho”. Assim poderiam fazer o conserto sem serem surpreendidos, caso alguém os estivesse seguindo.

Pneu consertado, chuva fina começando a cair, seguiram em frente. Chegando à cidade de Arcoverde, arranjaram um novo “manchão” porque o anterior estava muito desgastado e com furinhos feitos pelo atrito com a terra e pedras da estrada.
Esses furinhos, quando começavam a aparecer, antes que a câmara furasse, esvaziavam-na e abriam a parte do pneu onde se encontrava o manchão para mudá-lo de posição. Fizeram isso várias vezes.

Com o dia bem claro, passaram pela cidade de Pesqueira (pela BR-232) e antes de prosseguirem viagem, fizeram um giro por ela. Verificaram ser populosa, ter bom comércio, indústria forte, povo alegre e gentil, cidade com aparência de ser muito bem cuidada. O que os atrapalhava naquele momento era a chuva, que tirava muito do entusiasmo e dava-lhes uma vontade tremenda de tomar um cafezinho. Mas cadê dinheiro? Os últimos que tinham foram usados para colocar gasolina e agora aguardavam até onde ela daria. Devido à falta de experiência, tiveram um gasto descontrolado na ida, por isso, quando chegassem a Recife seria necessário que o piloto fizesse contato com o sócio para terem dinheiro rapidamente. Mas acontece que a coisa não seria tão simples assim, porque o piloto também não tinha experiência com os Bancos fora do Rio de Janeiro. Em consequência desse desconhecimento, no retorno que fizeram ao Rio de Janeiro tiveram de “comer o pão que o diabo amassou”.

Saindo das conjecturas e voltando à estrada, eles continuaram viagem, mas agora embaixo de chuva, que os atrasava bastante devido aos atoleiros e outros perigos.

Mais adiante, passaram por São Caetano, fazendo nela um rápido giro.

Voltando à estrada chegaram a Caruaru às 18h.

De imediato já dava para perceber tratar-se de uma cidade grande, bem moderna e avançada. Muito comércio, população festeira e comprovadamente hospitaleira (isso lhes foi provado).

Depois de entrarem na cidade e conversar algum tempo com várias pessoas, ficaram sabendo ter ali cerca de 100.000 habitantes e isso ainda naquela ocasião (início do ano de 1960). Se a informação era verdadeira, não sabiam. Então, por curiosidade, o piloto consultou em 2010 o IBGE e descobriu que em 1960 havia 105.135 habitantes. Até que aqueles moradores foram modestos por não acrescentarem os 5.135.

Embora sem dinheiro, estavam satisfeitos porque era véspera de carnaval e, se tivessem um pouco mais de sorte, no dia seguinte pela manhã já estariam em Recife, em plena folia do frevo e do carnaval.

Lá, então, de cara iriam ver as bonitas dançarinas do frevo saltitando com as pernas de fora e sombrinhas colorida nas mãos. Maravilha!!!

Motociclistas do local que estavam reunidos numa Praça, assim que os viram foram logo apertando suas mãos e exaltando a coragem pelo fato deles irem de moto do Rio até lá e ainda esticarem até Recife. Era uma loucura, diziam todos (e olha que da “missa” eles não sabiam nem da metade, inclusive os dois aventureiros).

Essa recepção foi extremamente providencial e logo a seguir será mostrada a razão.

Eles já não tinham mais dinheiro, onde dormir e muito menos o que comer. Precisavam arranjar um lugar para ficar sem pagar, mas para não se diminuírem frente à turma, Fernando que tinha maiores habilidades, dando uma de “João sem braço” falou:

“Será que algum de vocês poderia indicar um lugar onde pudéssemos passar a noite? Acontece que vamos ter de ficar por aqui porque, além da moto não ter luz, esta noite não tem luar, o que nos dificultará prosseguir viagem até Recife.”

Mais que depressa um dos rapazes grita:

“Vão lá pra casa!”

Após ouvirem isso, a vontade deles era gritar... Vamos!!! Mas “para não entregar o jogo de imediato” fizeram uma pausa e disseram:

“Ora, o que é isso, na sua casa incomodando todos?”

Então ele e outro rapaz responderam:

“Podem ir lá para nossa casa porque nós dois (eram irmãos) iremos para o pré-carnavalesco que vai ter no Clube da cidade e só voltaremos amanhã pela manhã. Vocês poderão ficar à vontade, usar nossas camas, o banheiro e o que mais quiserem”.

E continuaram dizendo que já poderíamos ir todos para lá agora mesmo a fim de os apresentarem aos seus pais.

E assim partiram todos para a casa dos dois rapazes. Piloto e Fernando na moto e os irmãos numa Vespa.

O caro leitor certamente estará pensando:

“Esses dois aventureiros eram malucos, não tem dúvida. Porém os dois rapazes da Vespa precisariam ser internados num Sanatório por levarem dois desconhecidos para dentro das suas casas”.

Entretanto, aqui vai uma explicação:

Se levarmos em consideração a violência que nos aflige nos tempos atuais, o caro leitor terá toda razão. Acontecia, porém, que naquela época os tempos eram outros e sobre isto até existe uma conhecida expressão popular: “Do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça”, o que significa haver inocência e muita paz naquela época. Mas por consequência da violência que deseduca e embrutece até pessoas bondosas, hoje, a confiança deu lugar à desconfiança e até medo das pessoas. Coisa lamentável porque naquele tempo todos viviam melhor pelo fato das pessoas acreditarem mais umas nas outras. Razão de terem oferecido acolhida a dois estranhos. Há, contudo, um detalhe a ser considerado. O oferecimento partiu de motociclistas, mostrando estar aí solidariedade, consideração e respeito de “irmãos” para com “irmãos”.

Bem..., continuando a narrativa.

Chegando todos à casa dos dois irmãos, eles apresentaram os viajantes aos pais, que os receberam educadamente e foram logo fazendo perguntas sobre a viagem e querendo saber novidades do Rio e se os dois estavam bem. Conversaram um pouco e a seguir o anfitrião disse para comerem alguma coisa, o que fizeram logo depois de tomarem delicioso banho, porque estavam além de sujos, famintos.

Os rapazes, que já haviam saído com destino ao baile pré-carnavalesco (era véspera de carnaval), confirmando o expressado anteriormente, só voltaram na manhã do dia seguinte quando estavam todos na casa tomando um lauto café. A mesa do café além de farta era saborosa, ocasião em que os dois viajantes aproveitaram para comerem o máximo possível por não saberem quando nem onde iriam comer novamente. Mas isso era coisa que não importava muito porque enquanto se é jovem, tudo é festa, tudo se consegue!

Motociclistas Invencíveis

Semanalmente vamos publicar, aqui no Viagem de Moto, capítulos do livro Motociclistas Invencíveis, romance extraído de uma viagem com moto ocorrida em 1960.

Conduzindo na garupa da moto um amigo, piloto sai do Rio de Janeiro por estradas de terra a fim de encontrar sua linda namorada, que saindo de Itabuna (BA) para morar no Rio de Janeiro, de repente, da noite para o dia, desaparece sem deixar rastros. Chegando a Itabuna, piloto descobre que ela fugia de assassinos (contratados para matá-la), pelo fato dela ser testemunha do assassinato de seu pai, ex-cacaueiro na região.

Por acontecerem muitas aventuras e novos amores pelo caminho, foram até a Paraíba.

Enfrentaram sol, poeira, chuva e lama. Ajudaram, foram ajudados, acontecendo inclusive que, por levarem uma garota (estava num leito de morte) entre eles dois até ao hospital, salvaram sua vida. Em si, a história mostra como eram os motociclistas Nos Deliciosos Anos Dourados.

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