Viagem de moto histórica - Brasil

No dia seguinte desceram para tomar café no Hotel e lá estavam dois motociclistas do Clube para fazer-lhes companhia e contarem as novidades da região.

Terminado o café, levaram-nos à Rádio Caturité onde falaram ao vivo sobre a aventura, a recepção que por lá tiveram e sobre a viagem de modo geral.

Encerrada a entrevista saíram todos e foram até a sede do Moto Clube para encontrarem com um grupo que os esperava, a fim de passearem pela cidade. Terminado o passeio foram todos a uma oficina de motocicletas.

Ao chegarem foram recebidos por um rapaz chamado Barros, que após atendê-los muito bem, deu uma olhada na moto e disse:

- “Será preciso enraiar a roda traseira que ficou um pouco empenada por estar suportando muito peso e os trancos na estrada (ele disse isso por não saber da ‘barbeiragem’ do Fernando que bateu com as rodas no meio fio quando quase foram precipício abaixo). Então será necessário soldar o paralama traseiro, por estar rachado; soldar o descanso central, que também está trincado; esticar a corrente; e fazer algumas limpezas e regulagens. Podem deixá-la, que amanhã de manhã entrego-a pronta.”

Os cicerones do Moto Clube logo disseram para que a deixassem e não se importassem com despesas, porque ela ficaria por conta do Moto Clube. Mediante tal gentileza, quem não concordaria?

À noite reuniram-se com motociclistas na Praça da Bandeira (local onde habitualmente motociclistas se encontravam) e de lá partiram, indo cada um em uma garupa, para irem jantar no restaurante Bolero.

Terminado o jantar, ao saírem do restaurante eles apresentaram uma desculpa dizendo que iam dar umas voltas a pé para conhecerem melhor as pessoas, as casas, o comércio e principalmente a vida noturna.

Compreendendo a justificativa foram liberados, mas os avisaram que no dia seguinte iriam procurá-los no hotel logo pela manhã.

Pedindo informações a algumas pessoas, os dois pegaram uma condução e foram finalmente para as casas das mães da Gabriela e Mariazinha, que ficavam na direção antes indicada pelos cicerones.

Por estar chovendo, tiveram dificuldade para pegar a condução mais adequada e acabaram saltando num lugar ermo e distante da casa. Solicitando uma orientação às pessoas que passavam apressadas, devido à chuvinha que caía, conseguiram saber que para encurtar caminho, não terem de subir ladeiras e saírem exatamente aonde queriam, era ir por dentro do cemitério. Se assim não fizessem teriam de dar uma volta muito grande nesse outro caminho mais longo e pegar a chuva que caía.

Fernando por sua vez achou melhor andarem mais. Afinal de contas não havia pressa. Mas o piloto, não concordando, disse que com a chuva incomodando tanto, quanto mais rápido chegassem às casas das mães das garotas, mais cedo estariam livres para irem embora. Então, o melhor mesmo seria ir por dentro do Cemitério.

Ao ouvir isso, quase que o Fernando caiu pra trás!

Se tivesse adivinhado o que iria acontecer lá dentro, com certeza o piloto não teria ido e levado Fernando com ele.

O cemitério era grande, mas com muro baixo, fácil de escalar, por isso não causava problema. A fim de não perder a direção de aonde iam, o piloto marcou referências a fim de saírem exatamente no local indicado.

Para o Fernando, pular o muro, mesmo sendo este baixinho, foi um custo pelo fato dele colocar uma porção de dificuldades tendo em vista o medo que expressava através da fisionomia.

Lá dentro dizia estar vendo alguém e que esse alguém poderia ser o vigia. Por sua vez o piloto dizia para que ele então ficasse calado, pois assim o vigia não os ouviria e andasse depressa por causa da chuva. Não satisfeito, dizia ter visto uma luzinha sobre uma sepultura, depois falou que à noite cemitério pode até ter fantasma, etc., etc. Por estar cheio dessas lamúrias, o piloto apressou o passo para que Fernando o seguisse com mais dificuldade e esquecesse aquelas bobagens.

Depois de caminhar rápido durante algum tempo, as lamentações não mais foram ouvidas. Achando estranho ter-se calado tão rápido e demoradamente, o piloto parou de andar, olhou para trás e não viu o Fernando. Ele simplesmente sumira. Mas pôde ver mais acima, embaixo de uma pequena marquise que ornava uma sepultura, linda e enorme coruja cinza e branca, que ali estava protegendo-se da chuva. Completamente imóvel, olhava para o piloto com seus olhos claros e enormes e vez por outra piscava aqueles grandes olhos. Mas, preocupado que estava com o Fernando, observou-a somente um pouco.

Olhando em volta e não o vendo pelas imediações, ele pensou:

“Será que voltou por estar apavorado?”

Ficando mais concentrado escutou um som abafado vindo de dentro do cemitério, porém bem difícil de ser localizado. Continuando a escutar aquele som estranho foi voltando com bastante atenção para saber do que se tratava e de onde vinha. Ao se aproximar e por isso o som ficar mais alto conseguiu finalmente localizá-lo. Vinha de dentro de uma cova bem profunda, aberta talvez naquele dia e adivinhem quem estava lá dentro? Perfeitamente... o Fernando!

Aconteceu que, com medo e olhando para onde não devia, bobeou e caiu naquela cova aberta cheia de lama e água. Estava ele tão assustado que quase não podia falar.

Não conseguia subir por que, tentando segurar nas bordas com seus 1,60m de altura, elas desmanchavam por estarem moles devido às chuvas. E nas várias tentativas que havia feito para dali sair agarrando-se nas bordas da terra molhada, estas se desmanchavam e caíam por cima dele. Apavorando-se cada vez mais devido às tentativas frustradas e já achando que com isso iria se enterrar ali mesmo, então começou a chamar pedindo ajuda.

Vendo aquela situação, o piloto se abaixou para segurar o pulso direito do Fernando com a sua mão direita, fazendo Fernando o mesmo no pulso do piloto. E, muito embora as mangas dos blusões estivessem escorregadias, mesmo assim o piloto puxou-o.

Roçando pela parede da cova, ao chegar à superfície Fernando colocou a mão esquerda na borda para dar impulso e saiu. Saiu, mas todo sujo de lama da cabeça aos pés. Do rosto só se via o branco dos olhos, totalmente arregalados!

Após isto seguiram caminhando rápido, com o Fernando segurando o blusão de couro do piloto, que lhe dizia para não sujá-lo de lama porque teria de falar com as mães das garotas. Disse também que, quando estivesse falando com elas ele nem chegasse perto porque, sujo de lama como estava e não sabendo elas o que havia acontecido, poderiam até se assustar, pensando ter havido briga, ou então era ele maluco fugido do hospício. Como tinham a missão de entregar-lhes, sem falta, os bilhetes, que ficasse afastado na hora.

O piloto tomou também o cuidado de passar bem longe de onde estava a coruja porque, se Fernando a visse após o trauma pelo qual havia passado, sem dúvida teria de ser carregado cemitério afora.

Depois disso não deu nem mais um pio e logo pularam o muro do cemitério para a rua.

A fim de ser possível perguntar a algum passante onde ficava a rua, o piloto pediu que Fernando se afastasse. É que estando ele junto ninguém pararia. Sairia até correndo. Conseguindo a informação, rapidamente localizou as casas.

Por estar caindo chuva fina, o piloto falou para Fernando se proteger da chuva e o esperar afastado, embaixo de alguma proteção.

Indo primeiro à casa da mãe da Gabriela, por sorte encontrou as duas mães juntas pelo fato delas serem vizinhas.

Apresentou-se tirando em seguida os envelopes do bolso, entregando-os às duas mães e dizendo que lessem com bastante atenção por terem sido escritos com muito carinho pelas filhas, que estavam com muitas saudades delas.

Sem querer fazer ou receber qualquer comentário, tratou de se despedir e saiu deixando-as à vontade para lerem as cartas.

Finalmente, missão cumprida!!!

Passando por onde estava o Fernando e dizendo-lhe estar tudo resolvido, chamou-o para irem logo embora por causa da chuva. Nisso, mais que depressa ele disse:

“Mas pelo Cemitério, não! Por lá eu não vou!”

Numa extrema casualidade, notou providencial aparecimento de um táxi, que após vê-los parou. Viu, mas não viu bem porque, se tivesse notado as condições do Fernando ele nunca teria parado.

O piloto entrou no banco da frente e o Fernando, lógico, no de trás para que o motorista não visse a sujeira dele e pediram que os levasse ao hotel. Ao darem o endereço, o motorista falou que conhecia o hotel e foram embora. Mas assim que o carro saiu notaram algo bem curioso. O motorista não tinha o braço esquerdo. Conversando, contou que o perdera num acidente por deixá-lo para fora da porta do carro sempre que dirigia. Num certo dia outro carro desgovernado bateu no lado dele esmagando-lhe o braço. Disse que não tinha problema para dirigir e que a carteira de habilitação permitia isso.

Sem qualquer problema e com bastante perícia, deixou-os na porta do hotel. Então, com satisfação. consideraram encerrada a missão para com as gentis moças.

Acomodados no quarto, o piloto lembrou-se da brincadeira na porta do cemitério em Ibimirim (PE), quando “alguém” disse: “Se não tivessem onde dormir, a porta do cemitério estava aberta”.

Isso fora falado justamente na ocasião em que faziam hora para encontrar as garotas no quarto delas. Aí então o piloto comentou para o Fernando que a queda por ele sofrida no cemitério, com toda certeza, fora castigo para que não falasse mais dessas bobagens.

No dia seguinte o tempo estava nublado e com chuva miúda.

O pessoal do Moto Clube passou no hotel pela manhã, chamando-os para irem até a oficina do Barros apanharem a moto que ficara totalmente recuperada e depois foram ao 13 Futebol Clube a fim de assistirem o Bingo, onde, segundo informaram, terça parte dos campinenses ia para lá jogar.

Por ser hora do almoço, foram convidados para almoçar.

Terminado o almoço, foi-lhes feito novo convite, desta vez para irem até ao aeroporto. Passeio que acabaram esticando até o Açude de Bodocongó, debaixo de chuva, indo até o Posto Fiscal para carimbarem o caderninho e de lá voltaram. Ao voltar repararam que agora a chuva estava ficando mais forte e constante.

O Açude de Bodocongó foi o ponto máximo da viagem, exatamente onde colocaram o último carimbo de ida no caderninho da viagem.

Motociclistas Invencíveis

Semanalmente vamos publicar, aqui no Viagem de Moto, capítulos do livro Motociclistas Invencíveis, romance extraído de uma viagem com moto ocorrida em 1960.

Conduzindo na garupa da moto um amigo, piloto sai do Rio de Janeiro por estradas de terra a fim de encontrar sua linda namorada, que saindo de Itabuna (BA) para morar no Rio de Janeiro, de repente, da noite para o dia, desaparece sem deixar rastros. Chegando a Itabuna, o piloto descobre que ela fugia de assassinos (contratados para matá-la), pelo fato dela ser testemunha do assassinato de seu pai, ex-cacaueiro na região.

Por acontecerem muitas aventuras e novos amores pelo caminho, foram até a Paraíba.

Enfrentaram sol, poeira, chuva e lama. Ajudaram, foram ajudados, acontecendo inclusive que, por levarem uma garota (estava num leito de morte) entre eles dois até ao hospital, salvaram sua vida. Em si, a história mostra como eram os motociclistas Nos Deliciosos Anos Dourados.

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