Viagem de moto histórica - Brasil

Com a pretensão de chegar a Feira de Santana antes do meio-dia, saíram às 7h45, passando por Serrinha às 8h20 e enfrentando estrada enlameada com alguma chuva. Nesse local, com o pouco dinheiro que tinham, compraram pequena quantidade de carne de sol e farinha crua, colocando-as em saco plástico para levarem porque a provisão anterior acabara e nada mais havia para comer.

Conforme o previsto, chegaram a Feira de Santana por volta do meio-dia e procuraram a mesma oficina onde consertaram a moto quando subiam para Recife e nada lhes haviam cobrado pelo serviço. Agora, sem dinheiro, queriam ver se não cobrariam nada novamente.

Seria necessário tirar um ou dois elos da corrente devido ao desgaste causado pelo atrito da lama na corrente, coroa e pinhão. Com isso a corrente foi afrouxando e o esticador, que já estava no máximo, não mais atendia qualquer regulagem. Isso aconteceu por causa da lama que constantemente foi se depositando nos elos da corrente, passava pela coroa e pelo pinhão, agindo como se fosse uma lixa, desgastando não somente a corrente como também coroa e pinhão. Isso fazia com que numa arrancada a coroa por girar em falso na corrente não proporcionava tração, desgastando-se ainda mais.

Felizmente, rodaram pouco na cidade para localizar a oficina, porque o Fernando ainda se lembrava onde ela ficava.

Quando os mecânicos os viram, ficaram tão surpresos e contentes, que só faltou carregá-los no colo. Queriam saber o que aconteceu na viagem, até aonde foram etc. etc. Deram-lhes toda atenção, mas o que os dois queriam naquele momento era consertar logo a moto para pegarem estrada o mais rápido possível e nada pagar pelo conserto.

Enquanto os mecânicos consertavam, os dois contavam as peripécias. Às vezes o piloto tinha de interceder porque, Fernando, se entusiasmando sem necessidade ia aumentando a história.

Tudo consertado, para sua felicidade, nada lhes cobraram outra vez, o que para eles era importantíssimo. Mas fizeram questão de tirar fotos com os dois na oficina e pediram que entregassem uns bilhetinhos com recados aos seus amigos no Rio. Deram parabéns pelo “raid” que os dois estavam fazendo e ainda se despediram deles com agradecimentos.

Mais adiante, colocaram gasolina com os últimos Cr$ 40,00 que tinham e pegaram estrada com chuva, o que já os estava chateando muito. Estava tão insistente, que a caatinga era só água. Tinha lugares onde a estrada, por estar mais alta, ajudava formar um lago. E sobre a água deste lago só se via a copa das árvores, antes marrom, agora verdinhas.

Notaram que ainda havia muito caminhão parado pela estrada, quebrados ou atolados.

Por falar em caminhão enguiçado, descobriram maldade muito grande que alguns motoristas criminosos faziam com pessoas pobres. Sem qualquer sentimento de humanidade, enganavam os passageiros (retirantes) que estavam conduzindo, furtando-lhes as últimas economias. Economias que serviriam para sobreviverem até encontrar o desejado eldorado que procuravam.

Aconteceu que, desde a ida, quando iam nordeste acima, já haviam reparado na estrada em sentido contrário, grupos de pessoas (homens, mulheres, crianças e idosos, certamente famílias) que estavam na beira da estrada protegidos por tendas improvisadas contra sol e chuva, depois de deixados ali por motoristas de caminhões.

Resolvendo dar uma parada, dirigiram-se a uma das barracas. Justificando protegerem-se da chuva, entraram numa delas e puxaram conversa com pessoas que ali estavam. Depois dos cumprimentos, falaram do tempo e assim como quem não quer nada, perguntaram a razão de estarem ali naquela situação.

Contaram que o moço do caminhão (pau de arara) que os estava levando da roça para a cidade grande (RJ, SP ou MG) teve uma peça do caminhão quebrada e foi com o caminhão comprar outra numa cidadezinha bem mais atrás.

Estranhando muito este fato, fizeram apenas duas perguntas:

1) Por acaso vocês já pagaram a passagem a ele?
2) E por que não foram todos no caminhão na tal cidadezinha, já que o caminhão foi?

Um senhor então respondeu que antes de embarcarem já haviam quitado todas as despesas, mas não foi possível irem junto porque, não podendo o caminhão levar peso demais, por causa da avaria, ficaram esperando o motorista voltar para apanhá-los.

Aí, imediatamente os dois pensaram:

“Voltar para apanhá-los esse motorista não voltará nunca. Haja vista estarem esses coitados há vários dias naquele lugar, após terem sido abandonados ao relento por ele”.

E aí conjecturaram:

“Como pode haver gente tão inocente e outras tão maldosamente espertas e insensíveis com a necessidade e a dor do semelhante? Sem falar no sacrifício de crianças, idosos e demais, que pelas consequências, ficam doentes ou até morrem. Isto não é somente esperteza maldosa. É desumanidade!”

Escutaram tudo o que aquele senhor falou, sem manifestarem qualquer opinião, por entenderem não ser possível resolver aquela situação. Apenas lamentaram o fato e ficaram com pena deles.

Revoltados com tudo aquilo, despediram-se e foram embora.

Eles que por lá passaram, que viram as condições da estrada Rio-Bahia (BR-116 e também da BR-110), nos locais próximos a elas e que tiveram a oportunidade de conversar com os retirantes que viajavam em busca do seu “eldorado” sentiram o “pulo no escuro” que esses pobres coitados davam nesses seus tristes e derradeiros desesperos.

E ainda tinha mais, pois além dos riscos, havia o sofrimento que passavam na viagem, os possíveis acidentes que poderiam ocorrer, além de não saberem se seriam bem sucedidos no local para onde se dirigiam. Sem falar na “armadilha” narrada antes, quando famílias ficavam abandonadas na estrada, depois de saqueadas do pouco que ainda lhes havia restado para sobreviverem. Mas apesar de tudo isto, com fé e determinação, continuavam céleres, enfrentando e vencendo todos os obstáculos e sofrimentos que encontravam pela frente.

Continuemos a narrativa da viagem:

Após enfrentarem muita lama e atoleiros, chegaram às 18:30h num posto de gasolina chamado Maracanã onde pernoitaram por estarem sem dinheiro e cansados de enfrentar tanta lama e chuva.

Durante essa pausa o piloto lembrou-se de um pensamento que teve na ida para Recife, quando do alto da maior elevação, admirando a natureza, viu longa estrada subindo e descendo morros até desaparecer bem longe. Aconteceu que naquele momento havia perguntado a si mesmo, quando e como chegaria naquele final de estrada. Agora, que novamente tinha essa visão e esse pensamento ele estremeceu, porque o que via da estrada, que sumia na longínqua linha do horizonte, era toda embaixo de chuva, de lama, abandono e desgraça. Antes, na ida, ele perguntava a si mesmo quando e como chegaria. Agora a pergunta era:

“Será que chegarei ao final dessa longa e perigosa estrada que está à minha frente?”

Era por essa razão que o povo dessas proximidades, ao falar da Rio-Bahia, dizia ser aquela a região onde ela era mais perigosa.

Motociclistas Invencíveis

Semanalmente vamos publicar, aqui no Viagem de Moto, capítulos do livro Motociclistas Invencíveis, romance extraído de uma viagem com moto ocorrida em 1960.

Conduzindo na garupa da moto um amigo, piloto sai do Rio de Janeiro por estradas de terra a fim de encontrar sua linda namorada, que saindo de Itabuna (BA) para morar no Rio de Janeiro, de repente, da noite para o dia, desaparece sem deixar rastros. Chegando a Itabuna, o piloto descobre que ela fugia de assassinos (contratados para matá-la), pelo fato dela ser testemunha do assassinato de seu pai, ex-cacaueiro na região.

Por acontecerem muitas aventuras e novos amores pelo caminho, foram até a Paraíba.

Enfrentaram sol, poeira, chuva e lama. Ajudaram, foram ajudados, acontecendo inclusive que, por levarem uma garota (estava num leito de morte) entre eles dois até ao hospital, salvaram sua vida. Em si, a história mostra como eram os motociclistas Nos Deliciosos Anos Dourados.

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