Conto sobre viagem de moto

Contrariando aquilo que qualquer autor de contos, mesmo o mais modesto e amador como este subscritor sugeriria, iniciei este relato pelo título, pois ele me surgiu à cabeça quando me vi, lá pela enésima vez, embasbacado olhando a moto do vizinho.

A viagem que me percebi fazendo na moto do cara que não conheço, se deu não pela raridade, beleza ou alto valor de mercado da motocicleta comtemplada. Pra falar bem a verdade não consegui ainda identificar que moto é aquela. A admiração também não se deve à atenção que seu proprietário dispense a ela, nem mesmo por barulhos ensurdecedores que ela possa fazer. Penso que já nestas primeiras linhas você que me leu até aqui deve estar achando o texto meio confuso: - “que viagem é essa que esse cara tá fazendo?” Foi exatamente depois de me fazer esta pergunta que decidi escrever este texto, talvez pra dividir com alguém este sentimento estranho que me inquieta há dois meses.

Explico-me:

Sou apaixonado por motocicletas e mais ainda por tudo que elas proporcionam a quem as possui, logo, motos, quaisquer que sejam, conseguem me roubar a atenção. Há aproximadamente dois meses me mudei com a família para um apartamento no quarto andar de um prédio, onde toda a vizinhança é constituída por edifícios verticalizados. Não há casas na redondeza. Certa feita, comtemplado a vizinhança da sacada do meu apartamento, meus olhos alcançaram ao longe, talvez a 500 ou 600 metros de distância, uma única motocicleta no estacionamento de um dos edifícios vizinhos. Por incrível que possa parecer, ainda hoje não consegui visualizar nenhuma outra moto além daquela e da minha, logicamente a melhor motocicleta do mundo. Você que lê este texto, o faz porque gosta de motocicleta e certamente, como eu, deve estar pensando que minha vizinhança é repleta de gente chata e desinteressante, afinal, que tipo de vizinho não possui moto, senão os menos interessantes?

Não tenho certeza de que moto seja aquela que tem me chamado a atenção nos últimos dias. Da distância que nos separa posso inferir que seja uma CB 500X ou uma NC 750, a única certeza que tenho é que parte de sua cor é vermelha.

Mas o que me chama tanto a atenção assim em uma moto, que embora possa ser uma excelente máquina da Honda. É uma motocicleta comum? Pasme o caro entusiasta motociclista ou motoqueiro que até aqui me acompanhou, o fato inusitado e intrigante da tal moto que me faz viajar em pensamentos nela, é o fato de nesses dois meses em que a observo, ela nunca ter saído do lugar!

Muitos de nós motociclistas, muito embora sejamos apaixonados por nossas máquinas, às vezes, inevitavelmente as negligenciamos durante a semana, deixando para nos esbaldarmos aos finais de semana. O sábado é infalível pra qualquer motociclista “de fim de semana”. Muitas das vezes o trabalho, o conforto do automóvel, as condições climáticas são desculpas pra deixarmos a moto na garagem durante a semana, mas no sábado, todos nós deixamos extravasar o motoqueiro selvagem que há em cada um de nós e encaramos sol, chuva, poeira e o que mais vier. O desconforto não consegue nos remover o prazer da sensação de pilotar as máquinas que nos fazem sentir mais jovens, viris e muito mais felizes. Exceto o meu vizinho com sua moto misteriosamente parada.

Já me peguei arrumando justificativa praquela moto ali parada, como se me olhasse nos olhos e me desafiando a entender o porquê de sua estática. Pensei que talvez fosse algum problema mecânico, mas alguém que more em um edifício imponente como aquele e que tenha um automóvel importado como o que fica todas as noites a lado da moto, não teria problemas financeiros pra colocar a moto em condições de uso. Imaginei que o dono estivesse viajando. Ao mesmo tempo não creio que alguém faça uma viagem de dois meses em período de baixa temporada como agora. Foram muitas as teorias que inventei e que ao mesmo tempo desminti comigo mesmo.

A intriga tomou tal proporção, que a primeira imagem que busco no café da manhã e última após o jantar é verificar se a bendita moto está no lugar, mas sempre que busco verificar sua presença o faço na esperança de que ela tenha saído dali pra proporcionar a alguém a alegria para a qual foi feita, que permita que o vento no rosto de seu piloto o provoque a não mais deixa-la sem executar seu mister, que é levar a felicidade a quem a monta.

Outro dia mesmo minha mulher me achou estranho, “meio calado” segundo ela e me perguntou o motivo da estranheza. Fiquei encabulado, relutei em responder, mas não precisou que ela me pressionasse muito para eu me abrisse e lhe contasse minha angústia. Ela sorriu, disse que a moto era do cara e ele andava quando bem quisesse, oras! Mas isso não pode ser! Quem tem uma moto e não se sente avidamente atraído em pilotá-la? Minha mulher não pilota, ela não entenderia.

Me aproximando do término destas poucas linhas, ansiei por fazê-lo e ao virar o olhar para aquele estacionamento e ali não a encontrar, chego a imaginar seu ronco, mas infelizmente ainda não será neste texto que comunicarei tal alegria ao leitor que me prestigia com sua atenção. Neste momento chego a maquinar uma visita ao vizinho, ir até o porteiro e expor a ele minha aflição, talvez ele seja um cara legal, um motoqueiro que me entenda a angustia e se unisse a mim no intuito de convencer o colega motociclista relapso, a não mais deixar sua máquina juntando poeira, ou talvez ele fosse um chato, que só anda de carro e me achasse um louco, então melhor não arriscar a ida.

Concluo aqui meu texto, olho mais uma vez pela sacada e lá está ela, estimulando mais e mais minha curiosidade, sendo inspiração para meu divagar. Quem sabe no próximo relato eu apresente aqui a você, colega motociclista, um feliz texto de como conheci o dono(a) da moto e fizemos um “bate & volta” juntos e conte como demos risadas da minha estória. Melhor ainda, talvez você leitor seja o dono da moto de minhas viagens, faça contato e iniciemos uma “amizade motociclística”. São vários talvez que ora me ocorrem, mas o fato é que ela ainda está ali, parada como da primeira vez que a vi há sessenta dias e infelizmente não existe prenúncio de que isso vá mudar tão cedo. Mas saberei esperar. Enquanto há duas rodas, há esperança.

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