Viagem de moto pela Argentina, Chile e Bolívia

Não havia sido mencionado nos relatos anteriores, mas um detalhe, ainda que mórbido, merece ser informado. Como comparação, quando ocorre acidente rodoviário, usualmente no Brasil é fincada uma cruz onde o evento aconteceu.

Na Argentina, é pintada na rodovia uma estrela amarela, com a informação sobre o nome da vítima e a data de seu falecimento. No Chile, em todo o trecho percorrido, pode-se notar a construção de altares com cruz, pintados e conservados, mastro com a bandeira chilena hasteada, muitos em forma de casa, alguns com bancos para sentar, caixa d'água, e decorados com poster fotográfico e objetos que recordavam a pessoa falecida, inclusive partes do automóvel envolvido (em certos casos, havia até a própria carcaça do veículo acidentado) e brinquedos, evidenciando tratar-se de vítima criança.

Viagem de moto Bolivia Chile ArgentinaCH5 – marco de local de ocorrência de acidente de transito, com vitima fatal

A saída de Vallenar ocorreu às 7h, cedo para os padrões invernais da cidade. O café matinal servido era tão simples quanto o jantar da noite anterior e do próprio hotel, mas suficiente para chegar ao primeiro local de apoio disponível na rodovia.

A R5, nesse trecho, já estava mais provida de bons pontos de parada, normalmente em postos de combustível das bandeiras Copec (chilena), Petrobras (mantido o nome brasileiro, mas de propriedade chilena) e Shell.

A saída de Vallenar ocorreu por meio de uma subida até chegar a R5. Logo, havia um posto Copec, localizado num cruzamento com outra rodovia de porte, onde o café matinal foi verdadeiramente consumido. Até chegar a esse local, um nevoeiro denso e frio envolveu a moto e a pilotagem teve que ser realizada “por instrumento”, pois o “modo visual” estava comprometido. Durou uns oito quilômetros. Na R5, o sol já se fazia presente, embora ainda estivesse bastante frio (6ºC).

Viagem de moto Bolivia Chile Argentina

No local, logo também chegou outra motocicleta, coincidentemente Yamaha Super Ténéré, modelo antigo, transmissão a corrente, pilotada pelo Ohlins, um alemão que fazia, há 5 meses, expedição solitária pela América do Sul. Apenas Guiana, Suriname e Venezuela não haviam sido visitados. Estava bem equipado e com muitos reservatórios para água potável e combustível. Conversa-padrão entre motociclistas que se cruzam em estradas, com palavras e frases em alemão, espanhol e inglês, para compensar a deficiência mútua em todos estes idiomas. Era a última etapa da viagem dele, por isso esvaziava o combustível restante nos reservatórios no tanque da moto. No dia seguinte, ela seria embarcada no porto de Valparaiso, com destino ao de Hamburgo.

Desde a saída a paisagem era, outra vez, monótona, mas até La Higuera cerca de 120 quilômetros depois, e uns 70 quilômetros de La Serena. A aridez da paisagem começa a se transformar, o frio aumenta, flores silvestres, cactos variados, plantações, olivais, gado bovino e até passarinhos começam a aparecer, emoldurados por picos nevados a distância. O maior parque eólico avistado na viagem também é cruzado e o vento na região é impressionantemente forte.

Há uma placa que sinaliza a entrada para um observatório, que nas curvas seguintes pode ser avistado no topo de uma montanha. Pela primeira vez surgem praias com areia fina, embora com locais onde grandes rochas compõem a paisagem litorânea banhada pelas aguas azul turquesa, outras vezes verdes, do Pacifico, com fauna aérea em abundância.

Viagem de moto Bolivia Chile ArgentinaCuesta Buenos Aires

Logo, percorre-se talvez a mais interessante sucessão de curvas em escarpa da viagem: a Cuesta Buenos Aires.

Estrada ampla, bem conservada e sinalizada, mão única e duas pistas em quase toda sua extensão. Paisagem deslumbrante. Esta e a Ruta de las Cornisas, entre Salta e Jujuy, na R9 (Argentina), foram as consideradas as mais adequadas para as grandes motos de estrada, como as Goldwing.

A partir de La Serena, ingressa-se na zona do Pacifico tida como a que oferece as melhores praias chilenas. Realmente, as faixas de areia cobertas de pedras são substituídas por areia de verdade, como as conhecidas no Brasil, embora pedras sejam abundantes, como coadjuvantes da paisagem. La Serena é espécie de cidade-dormitório de Coquimbo. Esta, sem grandes atrativos visíveis e mais industrial do que turística.

O local mais recomendado é a Baia Inglesa, conformada por praias tranquilas, areias brancas e agua azul turquesa. É um litoral cercado pelo deserto do Atacama, incomum no Brasil. As enseadas formadas pelas praias La Virgen e Chorrillos e o sitio paleontológico Los Dedos são os destaques, que foram recomendados por muitas pessoas durante a viagem.

Viagem de moto Bolivia Chile ArgentinaPlaya La Virgen

Há 450 quilômetros entre La Serena e Viña de Mar, o local do próximo pernoite e de descanso por 48 horas. A saída cedo de Vallenar, a boa estrada e o desempenho mais constante permitiriam alcançar esse destino entre 16h e 17h.

Uma parada para descanso e reabastecimento em Los Vilos e a conversa com um motociclista chileno, Roberto, motociclista e professor universitário em Santiago, alterou esse horário.

Ele sugeriu seguir na R5 até a cidade de Pullalli, na R5, cerca de 80 quilômetros à frente, e dobrar à direita sentido Papudo, no litoral. Daí, seguir os cerca de 150 quilômetros restantes rumo Sul, sentido Viña de Mar/Reñaca/Valparaiso, pela costa. Assim foi feito.A paisagem é incrível: estrada estreita, escarpas sinuosas, matas verdes, rochedos íngremes, praias com areia branca e mar azul turquesa, casas bacanas e bem conservadas, e sol poente (aliás, dependendo do horário, durante toda a viagem, o sentido Oeste das estradas faz com que o sol seja frontal todo o tempo, e como este se põe mais tarde, torna-se cansativa a iluminação constante nos olhos).

Viagem de moto Bolivia Chile ArgentinaLos Dedos

Viagem de moto Bolivia Chile ArgentinaViagem de moto Bolivia Chile ArgentinaRuta del Mar - Papudo

Adicionalmente, era feriado e muitos carros também retornavam das praias sentido Sul e pela costa. O resultado foi enfrentar congestionamento e cansaço que teriam sido evitados caso a opção tivesse sido seguir diretamente pela R5. Mas valeu a pena.

Como consequência, a opção foi pernoitar logo em Viña del Mar, no segundo hotel encontrado no caminho, às 19h45, muito agradável, à beira mar, e em zona bem servida de restaurantes e outros serviços, ao lado da gaivota símbolo da cidade, esculpida num costado de morro.

Viagem de moto Bolivia Chile ArgentinaViña Del Mar

Foi a maior cama utilizada na viagem, e também a maior até então conhecida. A ideal para as 48 horas seguintes de descanso.

O jantar foi a partir das 20h30: frutos do mar e Pisco sauer.

Buenas noches.

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