Viagem de moto pela Argentina, Chile e Bolívia

A alvorada foi às 6h30, pois o serviço de café começaria às 7h. O frio logo foi sentido no momento de ir buscar a motocicleta, que havia ficado no estacionamento coberto, meia quadra distante do hotel.

Estacionada defronte do hotel, sob árvores, a programação do GPS informava que a cidade de Buenos Aires, pela R7 (Panamericana), estava distante cerca de 1.200 quilômetros, que poderiam ser percorridos em 14 horas. Não sabe muito sobre a vida real de um motociclista esse aparelho, cuja voz de comando é da Inez, uma espanhola nata.

A R7 é parte do corredor bi oceânico Atlântico-Pacífico e em território chileno é designada Ruta CH-60, até Valparaiso. Na última viagem de motocicleta a Mendoza, em março de 2018, a estrada escolhida para retornar para a cidade de Buenos Aires foi a R8. Daí a opção de utilizar outro roteiro.

Bolsas guardadas nos baús laterais e no Top Case e mala de tanque fixada. Motor funcionando na lenta, para aquece-lo e aos fluidos, capacete, óculos, casaco, cachecol, luva e tudo mais para frio extremo. Montado e ploft, ploft e ploft. Pombos mendozinos que dormiam em galhos de árvores também defronte do hotel, despertaram com o barulho do motor, resolveram mostrar descontentamento e excelente pontaria. Capacete, visor, casaco, luvas, para-brisa, instrumentos, baús laterais e bolsa de tanque foram atingidos por fedorento e liquefeito coco de pombo. Sobrou até para a Inez, coitada.

Para tudo. Desliga a motocicleta e desequipa-se para tentar limpar o melhor possível. Em resumo, embora em um posto YPF entre Mendoza e San Luís o frentista tenha oferecido um produto de limpeza, o cheiro e as manchas vieram junto até Buenos Aires, quando a motocicleta foi finalmente lavada. Para quem nunca teve essa experiência ou sentiu o aroma, lembra vômito de bêbado, só que mais pegajoso e fedorento. Diz-se popularmente que cocô de pombo na cabeça é sinal de sorte. Tomara.

O trecho entre as cidades de Mendoza e San Luís, na nona e décima províncias (de iguais nomes) percorridas na viagem foi de frio extremo, não sentido anteriormente sequer nas regiões mais altas dos Andes.

Quando a musculatura das pernas começa a tremer indica pré-hipotermia, incompatível com direção segura. Há que parar e caminhar, batendo os pés com mais força no piso para reativar a circulação e ingerir bebida quente. As camadas de roupa térmica sob o casaco pareciam inexistir. As luvas Thinsulate para frio extremo, mesmo com o aquecedor de manoplas ativado, permitiam sentir gelar as pontas dos dedos. As botas Timberland Outdoor, impermeáveis e para ambientes externos de frio intenso, com proteção de Gorotex, não protegiam. Os dedos dos pés também gelavam. A cabeça e o pescoço estavam bem protegidos, com máscara térmica integral (denominada Pasa Montaña, na Argentina) e três camadas de cachecóis. Impressionante o frio.

Embora comparativamente não seja tão alto como o Altiplano andino, os cerca de 2.500 msnm que caracterizam essa região estão em planície desprovida de proteção natural de montanhas, o que favorece que o vento gelado do maciço do Aconcágua sopre com todo o seu vigor e sem sofrer resistência.

Os 360 quilômetros até Villa Mercedes (onde ocorreu o reabastecimento), após a cidade de San Luís, são de estrada excelente, mão única e com duas faixas, dividida por canteiro central.

Em razão do frio, foram feitas quatro paradas, uma das quais para conhecer o centro da cidade de San Luís. Foi o trecho de melhor desempenho quilometro/litro da La Poderosa: 22.7 km/l, com média de 104.9 km/h, segundo a Inez. Seu pior desempenho, foi no início da viagem, entre as cidades de Buenos Aires e Córdoba: 12.5 km/l. Na média da viagem, foram 19.8 km/l. Excelente.

Viagem de moto Bolivia Chile Argentina 103

Não havia atrativos nesse roteiro. Aliás, tudo se torna monótono longe dos Andes ou do Sul argentinos. Sabia-se que desde fevereiro de 2017 a R7 (e também a R8, em outro trecho e por igual motivo) estava interrompida (55 quilômetros) entre as cidades de Rufino e Diego de Alvear, em consequência de transbordamento da Laguna Picasa por excesso de chuva. Essa condição determinou decidir parar para dormir em cidade antes de Rufino, que está localizada a 160 quilômetros de Vicuña Mackenna. Esta, a primeira opção para o pernoite, a 120 quilômetros de Villa Mercedes e a 470 quilômetros de Mendoza.

Entretanto, apesar do frio extremo, a vontade de chegar em casa crescia, ainda havia cerca de duas horas de luz natural e seriam apenas mais 100 quilômetros até a cidade de Laboulaye. Dane-se o frio, ainda que fosse necessário fazer uma ou mais paradas para caminhar e “bater o pé”. Assim foi feito.

Laboulaye é menor do que Vicuña Mackenna, mas logo foram avistados três hotéis razoáveis e à beira da rodovia, com garagem e WIFI. Era o necessário e suficiente para o pernoite. Nenhum tinha vaga disponível. Um evento agropecuário estava ocorrendo na cidade. Já eram 18h40, e estava escuro e frio. Do outro lado da rodovia, uma bem estruturada estación de servicio Shell, 24 horas.

Dentro da cidade, outros dois hotéis foram consultados. Sem vaga. No terceiro, o Victoria, havia o último quarto disponível, a incríveis quase USD 20 a diária, com garagem e WIFI. Quarto simples, pequeno e de baixa qualidade. A tampa do vaso sanitário estava solta e ficava pendurada num prego na parede, para ser utilizada quando e se necessário, ou apenas para decoração. Mas, havia água quente, aquecimento e cama e seus acessórios. Por um lado, foi o pior hotel da viagem; por outro, a solução de um problema que poderia ter sido complicado, uma vez que a opção a hotel seria passar a noite no posto Shell.

Sanduiche, empanadas e cappuccino quente foram o jantar dessa última noite da viagem.

Buenas noches.

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