Viagem de moto pelos Estados Unidos

Bem, hoje é o dia. Vou passar em Buffalo e comprar uma roupa de chuva na HD, naturalmente escolhendo uma cor discreta e depois cruzar a fronteira com o Canada. O Alaska está logo ali em cima, pensei.

O dia prometia, começou bem logo cedo. De vez em quando a gente pega um Super 8 com o café da manhã decente e esse era um deles. Outra coisa que me deixou satisfeito foi o "gatilho" que fiz na tal da chaparreira, embora tenha quebrado duas agulhas, a sacana já não caia.

Empanturrei-me de wafles com aquele melado, que faz nossa glicose disparar rumo à estratosfera, vesti-me à carater e parti pronto para o que viesse e desse. Primeiro, uma parada em Buffalo para a compra da sensacional roupa de chuva que, eu tinha certeza, espantaria toda a chuva do meu caminho e ficaria guardada eternamente no bagageiro da moto.

Roupa comprada, GPS "setado" para a fronteira com o Canada, que está logo ali, a 14 milhas de distancia. Bastante movimento, mas nada que se compare a uma Linha Amarela num sábado pela manhã. No caminho, vou pensando se devo modificar um pouco a pronúncia do meu inglês, afinal, os canadenses tem uma certa influência francesa, etc. e tal, mas pensei e achei melhor deixar como está, ou seja: uma bosta. Eis que chego na fronteira e na minha vez de fazer a imigração, entro com a moto em uma baia, uma policial muito simpática me atende e pede o meu visto. Visto, que visto? Penso eu. Já tenho visto americano e pela dificuldade de consegui-lo ele deveria me permitir entrar até em Marte. Não, eu teria de ter um visto para o Canada. Chateadíssimo, mas sabendo que as regras aqui são cumpridas, falei com a policial que não me restava alternativa senão voltar pelo mesmo caminho. Nããããoooooo, voltar é o cacete. Com meus documentos (passaporte e documentos da moto) presos, a cancela trancada, fui encaminhado por dois policiais (sem algemas, talvez devido à idade) para uma sala onde me perguntaram um monte de coisas e eu respondi outros tantos. Se as respostas eram coerentes com as perguntas não sei mas os caras me entregaram um formulário, cheio de carimbos e siglas que eu deveria entregar na volta, na imigração americana. Não tem como escapar, uma fica a 50 metros da outra. Quando chego na imigração americana é que o caldo entornou de vez. Ainda tive tempo de passar um rádio para o Cyro ( tinha um carro na minha frente ) e dizer que achava que iam me passar a "pulseira". Chega minha vez, o tal do formulário dizia simplesmente que tentei entrar ilegalmente no Canada a partir dos EEUU. Agora era a policial americana, muito menos simpática, desconfiadíssima até mesmo da minha heterosexualidade, pois ao conferir a placa da moto com meu nome e o certificado em nome do Cyro começou a imaginar coisas que nem me atrevo a pensar, a filadaputa. Agora a coisa ficou séria. Travaram os documentos e a moto. Fui encaminhado para uma sala onde tinham uns 30 "foras-da-lei" como eu. De chaparreira e colete de couro, não me sentia deslocado no meio daquela babel, era nego de turbante, outro com um quipá, a mulher cheia de véus, 4 chineses quietinhos num canto, uma familia cucaracha falando alto e tomando "esporro" e eu ali, quieto, esperando os "comandos" brasileiros saltarem de para-quedas e resgatarem-me a qualquer momento. Como os "comandos" deveriam estar em greve ou em alguma passeata gay, depois de quase 3 horas fui chamado por um policial que aceitou minha explicação. Sai dalí frustrado, tenso, mas resolvi tirar uma foto daquele açude metido a besta senão a oposição não acreditaria que estive lá. Parei a moto num estacionamento, tripoide com câmera fotográfica às costas vou caminhando em direção à tal de cachoeira procurando um local para fazer o registro fotográfico. Eis que vejo a entrada de um parque, com uma tabuleta ideal para meu propósito. Acontece que tinham 3 mulheres batendo fotos, ainda me ofereci para faze-lo mas a resposta veio malcriada e na bucha : "We don't need any help!". Danem-se, pensei enquanto aguardava. Acontece que as mulheres eram cucarahcas pois falavam naquele inconfundível castelhano rápido entremeado de risadas. E nada delas acabarem com as fotos. Começou a se formar uma fila com pessoas que também queriam tirar fotos naquele local. Acabei ficando de saco cheio, armei o tripoid com a câmera no meio da rua, coloquei a máquina em self-timer, disparei-o e tomei meu lugar em frente a placa. Ah, pra que, as cucarachas começaram a xingar e eu a responder com saudáveis e didáticos "putaquiparius".

Elas ainda ensaiaram continuar, mas parti para uma pose mais ousada.

Depois dessa elas se retiraram soltando os famosos "maricón", "hijodeputa" e outras maravilhosas expressões castelhanas. A partir desse momento recuperei-me. Brasil 1 x 0 Argentina (não sei de onde elas eram mas adoro pensar que eram argentinas).

Sai dali e fui para Buffalo parando num Subway. Liguei o notebook, falei com amigos e me lembrei de uma sugestão de meu filho Breno: "- Pai, vai a Cleveland, lá tem o Hall of Fame do Rock and Roll. Gaste nossa herança mas gaste com bom gosto e sabedoria !". Bingo ! Apesar da hora, do cansaço e das confusões, montei na Camila e falei: "- Cleveland, aqui vou eu !" Afinal, o que são 200 milhas pilotando uma motocicleta? Como dizem os mineiros espichando o beiço "- É logo ali, sô".

Comentários (1)

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Muito boa suas histórias caro Hélio.
Acho que já as estou lendo pela enésima vez... risos, fora as várias vezes que as indiquei para outros amigos lerem.
Muito obrigado pelo seu bom humor e histórias maravilhosas.
Viajamos juntos...

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