Viagem de moto até o Deserto do Atacama no Chile

Final de 2019 se aproximando e vi a oportunidade de uma viagem ao Chile no início de janeiro/2020. O planejamento foi simples: traçar a rota, pesquisar e ouvir opiniões de quem já percorreu um trajeto semelhante e, por fim, separar os itens necessário para a viagem.

A ideia inicial seria um percurso de 14 ou 15 dias saindo de Porto Alegre até Santigo no Chile, seguir até San Pedro do Atacama e retornar via Uruguaiana.

A ansiedade para pegar a estrada era grande e poucos dias do início, precisei repensar tudo pois, devido a imprevistos, teria somente 9 ou 10 dias disponíveis para viajar.

O plano “B” seria uma rota mais curta, mas buscando passar por lugares diferentes na medida do possível. Nova rota traçada, mas logo no primeiro dia já sofreu alteração… dessa vez por bons motivos.

Dia 1 – Porto Alegre a Mercedes

A saída de Porto Alegre ocorreu por volta das 7h30, com tempo bom e temperatura na casa do 20°. Passando a cidade de Guaíba segui pela BR-290, que possui trechos muitos ruins, principalmente depois de São Gabriel. Em uma parada para abastecer conheci um pessoal de Resistência na Argentina que retornavam de Florianópolis. Perguntaram qual o destino da viagem e me deram algumas dicas sobre a Argentina.

Próximo à cidade de Alegrete passei por um buraco na pista batendo bem forte a roda dianteira. Por sorte aliviei o peso nas pedaleiras, porém para segurar a moto puxei o guidão para trás chegando quase a bater no tanque. Rodei até achar uma sombra para colocar o guidão novamente no lugar.

Já em Uruguaiana (destino do dia), fiz o câmbio e a carta verde, mas como ainda era cedo, decidi alterar o planejamento e seguir viagem. Procurei no Google Maps uma cidade para ficar e optei por rodar até Mercedes, que fica na província de Corrientes. Após cruzar a fronteira, nota-se a diferença tanto das estradas (muito melhores e pouco movimentadas) bem como na paisagem, muito mais plana que o Rio Grande do Sul.

Primeiro dia com 760 km rodados.

Dia 2 – Mercedes a Quimilí

Pelo meu planejamento o destino do dia seria a cidade de Charata, mas como já havia adiantado a viagem logo no primeiro dia, novamente busquei no Google Maps um novo local mais adiante no mapa, sempre verificando a disponibilidades de hotéis nas redondezas. Assim, resolvi seguir até Quimilí que ficava ao 667 km de distância de Mercedes.

Naquele dia às 9h da manhã a temperatura já estava bem alta, o que tornava difícil a pilotagem com jaqueta e luvas. Chegando a Corrientes segui as dicas de outros viajantes e percorri a avenida pela via lateral até a margem do rio para então acessar a ponte (não é permitido motos na via expressa). Logo após Corrientes inicia o famoso Chaco Argentino, com sua reta de aproximadamente 600 km e temperaturas na casa dos 40°, mas esse trajeto ficaria somente para a volta pois eu segui para o sul em direção a Tafi del Valle.

Chegando a Quimilí fui em busca de um hotel. A cidade não tem nada! Somente algumas quadras com ruas de chão batido e muita poeira. No final achei um bom hotel chamado Halim. Mesmo ainda em construção tem bons quartos, tudo bem novo e confortável.

Quando fui realizar a limpeza do filtro de ar notei que parafuso da grelha que prende ao paralama havia de soltado, então arrumei outro e fixei novamente.

Dia 3 – Quimilí x Tafi del Valle

Terceiro dia com previsão de chuva… Após o café da manhã, ao colocar a bagagem na moto, vi que o céu estava bem encoberto e ventava bastante, fazendo com que a rua fosse uma nuvem de poeira. Segui pelas rutas 89 e 34 até Santigo Del Estero, trecho sem chuva porém com fortes ventos laterais que forçavam dirigir com a moto inclinada. Após Santigo, continuei pela Ruta 9 passando rapidamente por Termas de Rio Hondo. Rodei até a Ruta 323 que estava em péssimas condições, cheia de buracos e sem nenhum movimento.

A subida a Tafi del Valle se dá pela Ruta 307, que percorre uma serra que nos leva a 2014 metros de altitude em meio a uma mata fechada com muitas, mas muitas curvas… Simplesmente sensacional! Aos poucos o frio foi aumentando e começou uma leve garoa, mas nada que impedisse de curtir a estrada e a paisagem.

Tafi é uma cidade pequena com muitos turistas. Fica em meio a um vale, mas com o tempo nublado não havia muita visibilidade das montanhas. Certamente pretendo voltar um dia para conhecer melhor a região.

Distância do dia: 424 km.

Dia 4 – Tafi del Valle a San Salvador de Jujuy

Amanheceu com uma chuva fraca, fazendo com que eu aguardasse até as 8h30 para sair do hotel. Com o tempo fechado, a visibilidade estava muito ruim, mas continuei subindo a montanha, curva após curva… foram uns 15 km até que o céu abriu e consegui enxergar o topo da montanha. Eu estava literalmente acima das nuvens! A partir daquele ponto o sol me acompanhou durante todo o dia.

No “outro” lado de Tafi, a estrada está com asfalto bem irregular, mas a paisagem é de tirar o fôlego, então nada de pressa, é seguir devagar e parar para muitas fotos.

Saindo da Ruta 307 acessei a Ruta 40 até a cidade de Cafayate onde abasteci a moto e segui pela Ruta 68 sentido Salta pois queria conhecer a Quebrada de las Conchas, região muito bonita com diversas formações rochosas. Neste trecho deve-se ter muito cuidado com pedras na pista! O contraste da paisagem desta região é algo surpreendente e ao final da Ruta 68 encontra-se um vale com muito verde e muitas curvas que nos leva até a cidade de Salta.

Em Salta, decidi por não entrar na cidade contornando-a pela “Au Circunvalación Oeste” até a Ruta 9 para então seguir pelo “Camino de Cornisa”, uma estrada muito estreita e com diversas curvas que liga Salta a San Salvador de Jujuy (recomendo muito essa Ruta!).

O destino do dia foi Los Alisos, pouco antes de Jujuy. Acabei ficando em um “rancho” fora da cidade que me possibilitou, no dia seguinte, sair cedo e sem o trânsito pesado da cidade.

Distância do dia: 394 km.

Dia 5 – San Salvador de Jujuy a San Pedro de Atacama

O grande dia! Acordei ainda escuro e segui a mesma rotina: banho, café da manhã, bagagem na moto e parti rumo a San Pedro de Atacama. Em uma hora de estrada já estava em Purmamarca, a 2324 metros de altitude, aonde fica o “Cerro de las Siete Colores”, uma montanha multicolorida que fica ao lado deste pequeno vilarejo (na verdade o vilarejo se formou na base da montanha). Como estava difícil estacionar a moto, fiz apenas algumas fotos de longe e segui adiante.

A travessia da Cordilheira do Andes é algo inexplicável, somente estando lá para se ter noção da sua grandeza. A cada curva a paisagem muda completamente. São montanhas amarelas, vermelhas, verdes, cactus gigantes, muita coisa para assimilar e também distrair a pilotagem. A estrada estava muito vazia e por muito tempo rodava sem ver outro veículo, achei que fosse encontrar diversas motos, mas ao contrário, só se ouvia o ronco da minha moto.

A 4170 metros de altitude cheguei ao mirador “Abra de Potrerillos” onde parei para fotos e comprei algumas balas de coca para ajudar com a altitude.

Seguindo pela Ruta 52, passei pelas Salinas Grandes com sua imensidão branca. Abasteci em Susques e, próximo das 13 horas, estava no Paso de Jama. Tive o azar de chegar logo após dois ônibus de excursão e como a aduana do Chile é muito mais burocrática, foram duas horas para conseguir cruzar a fronteira. Já fazia bastante frio neste momento e, após liberado pela aduana, a moto não queria pegar por conta do ar rarefeito. Depois de algumas tentativas, consegui ligar a moto e segui sentido Atacama.

Os picos nevados estavam cada vez mais próximos e o frio aumentou muito. Em um trecho ainda havia blocos de neve ao lado da estrada. A moto também sentiu, em certos pontos não passava dos 80 km/h. Ainda passei pelo Salar de Tara e pelo Vulcão Licancabur até chegar a San Pedro. Ao abastecer a moto, notei que o farol estava queimado, pedi informação no posto de gasolina e consegui comprar uma lâmpada para substituir.

485 km percorridos em umas 10 horas!

Dia 6 –San Pedro de Atacama

Day off. Como ficaria somente 1 dia em San Pedro, optei por ir de moto ao Vale de La Luna durante a manhã e à tarde contratei um passeio para as Lagunas Escondidas.

San Pedro possui muitas outras atrações e acredito que para aproveitar bem o local seriam necessários pelo menos 4 dias. Mais um motivo para voltar!

Dia 7 – San Pedro de Atacama a General Güemes

7º dia de viagem e já era hora de voltar. Procurei sair um pouco mais tarde para evitar o frio e desta forma às 9h já estava na estrada rumo à travessia dos Andes. Tudo ocorreu bem e pouco antes do Paso de Jama duas Street Glide e uma GS1200 passaram voando baixo por mim. Ao chegar na aduana encontrei os três motociclistas que retornavam para São José do Rio Preto (ou Ribeirão Preto, não tenho certeza). Conversamos um pouco enquanto fazíamos os trâmites e logo após abastecer a moto segui em direção a General Güemes. Optei por ficar nessa cidade e não em Salta para poupar tempo de estrada (para acessar Salta saindo da Ruta 34 são mais 50 km por trecho).

Distância do dia: 541 km.

Dia 8 – General Güemes a Mercedes

Acordei sem saber ao certo até onde rodaria neste dia. Minha primeira opção seria ir até Corrientes. Com previsão de chuva, sai cedo e após 1 hora já estava na região do Chaco para percorrer os 600 km de reta. Os primeiros 200 km foram bem tranquilos, pois o tempo nublado ajudou com o calor, mas após o céu abrir a estrada virou um inferno. Extremamente quente. A cada parada para abastecer molhava toda a roupa, mas pouco adiantava, em 15 minutos estava tudo seco.

Em Presidência Roque Sáenz Peña após um lanche, ouvi um ronco de moto e quando olhei para a entrada do posto era o trio de São José (ou Ribeirão kkk) que vinham de Salta e ficariam em Corrientes. Novamente conversamos um pouco, batemos uma foto e segui viagem. Cheguei a Corrientes às 17h30 e, como anoitecia próximo das 20h, resolvi esticar até Mercedes, onde cheguei as 21hs.

Total do dia: 1.038 km.

Viagem de moto Deserto do Atacama Mapa

Viagem de moto Deserto do Atacama Chile Roteiro

Dia 9 – Mercedes a Porto Alegre

Último dia sem muitos atrativos, pois faria o mesmo caminho da ida. Como era domingo, havia muito trânsito na estrada, o que tornou a volta muito cansativa. Foram mais 760 km até chegar em casa com paradas somente para abastecimento.

Em resumo: 9 dias de muita estrada (5.205 km) percorrendo paisagens únicas, duas fronteiras cruzadas, travessia da Cordilheiras dos Andes e principalmente conheci locais que nunca havia imaginado ir.

Até a próxima!

Comentários (1)

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obrigado por contar essa viagem maravilhosa, gostei demais.

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